O MODERNISMO DOMESTICADO DE RICHARD NEUTRA


Assim como Breuer, comentado semanas atrás, Richard Neutra (pronuncia-se “nóitra”) foi mais um europeu que imigrou para os Estados Unidos, embora não tenha ido por causa da guerra. Nascido em Viena em 1892, ele foi para Chicago em 1923 e se estabeleceu finalmente em Los Angeles em 1925.

Trago Neutra à atenção de vocês por uma razão: a arquitetura dele contradiz a maioria das críticas que se faz em relação à arquitetura moderna quando aplicada à moradia.

Dono de uma obra extensa e bem sucedida, penso que o melhor Neutra aparece nas residências que construiu. E não necessariamente nas mansões, que foram muitas, mas nas casas médias e pequenas, para famílias normais. Nessas casas encontramos a mesma economia de meios, clareza e racionalidade, combinadas com uma integração fantástica com a natureza circundante, com o uso de materiais naturais, com alta qualidade construtiva –responsabilidade tanto do projeto quanto do trabalho do construtor— e com uma constante preocupação com a habitabilidade.

Essas casas se abrem para o exterior, permitindo que os jardins penetrem visualmente e literalmente no espaço habitável. Ao mesmo tempo, o interior é protegido contra o excesso de sol por meio de beirais (extensões da cobertura) e ventilação cruzada.

Como uma casa envidraçada pode perder privacidade à noite, tornando-se uma vitrine, Neutra inventou um sistema que permitia que se mantivesse as cortinas recolhidas sem que o interior fosse devassado: lâmpadas fluorecescentes embutidas nos beirais criavam reflexos para os que observassem a casa desde a rua, impedindo que se visse o interior e mantendo a possibilidade de aproveitar vistas muitas vezes fantásticas do entorno de LA.

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OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se, para eu poder saber com quem estou me comunicando. Obrigado.






5 comentários:

emiliano homrich disse...

Achei que poderia ser oportuno o texto do Contardo, publicado na Folha na data de hoje.


CONTARDO CALLIGARIS

O espírito das casas
O espaço no qual circulamos é um dos grandes protagonistas de nossas vidas

NUMA MESMA tarde, assisti (com prazer) a duas estréias da sexta passada: uma história de horror, "Almas Reencarnadas", de Takashi Shimizu, e uma história de amor, "A Casa do Lago", de Alejandro Agresti. Os dois filmes têm em comum um clima sobrenatural. No primeiro, um diretor de cinema filma a história de uma série de assassinatos que aconteceram num hotel 35 anos antes; com isso, o passado se desperta. No segundo, um homem e uma mulher se correspondem e se amam: eles estão vivendo em épocas diferentes (ele, em 2004; e ela, em 2006), mas na mesma casa. Interessei-me pelos filmes porque gosto daquela tradição narrativa na qual o espaço concreto, em que os personagens vivem e circulam, é por sua vez uma personagem importante da história. No primeiro filme, o hotel (ou sua reconstrução no estúdio) parece impor a repetição do passado. No segundo, a casa do lago, na qual, em épocas diferentes, ambos os protagonistas escolhem viver, é a ponte entre eles, o lugar onde se abre uma brecha no tempo. Em geral, subestimamos o espaço concreto no qual vivemos. Não acreditamos que sentimentos, afetos e relações dependam também do cenário concreto de nossa vida. Ora, os militantes do espírito new age adotaram a arte do feng shui para corrigir as energias negativas de casas e escritórios. Mas não é preciso disso para entender que o espaço no qual moramos nos determina e nos expressa. Que seja ou não escolhido por nós, ele diz qual é a convivência com os outros que desejamos ou que nos permitimos: banalmente, o tipo de mesa (não só seu tamanho) diz se queremos jantar em companhia ou cada um no seu canto, a disposição do sofá diz se preferimos conversar com os amigos ou parar na frente da televisão, e por aí vai. O mesmo vale para o espaço urbano: temos a vida pública que nossas cidades nos impõem. Quando, numa mudança, estamos apostando no futuro, sonhamos com uma casa e uma decoração desenhadas pelo próprio Walter Gropius, modernistas, limpas, funcionais, despojadas. Tempo atrás, Ana Verônica Mautner, numa crônica do caderno Equilíbrio, da Folha, comentou a proliferação de caçambas pelas ruas de São Paulo: reformamos custosamente até os apartamentos que alugamos porque queremos fazer tábula rasa na hora de mudar de casa, queremos evitar que nossos novos caminhos sigam as passagens que foram desenhadas no chão pelos hábitos de quem lá morou antes da gente. Uma vez instalados, esvaziamos as caixas de nosso passado e nos tornamos, aos poucos, Biedermeier e kitsch, enchendo o espaço de móveis que limitam as potencialidades da casa e de lembranças que nos forçam a continuar sendo quem sempre fomos (a foto do casamento dos avós, a coleção de pedras que nosso filho juntou no primário, um quadro horrendo que compramos na lua-de-mel). Um bom arquiteto ou decorador, ao visitar nossos aposentos, deveria poder descobrir as grandes linhas de nossa vida relacional: talvez ele pudesse até enxergar, atrás da vida que temos, a vida que desejaríamos ter. Aviso: se seu parceiro ou sua parceira muda de repente a disposição dos móveis de casa, não é apenas de estética que se trata. Nas minhas gavetas tenho alguns romances inacabados. Um deles é a história de alguém que compra uma casa cujos antigos donos saíram fugindo, sem nem fazer as malas. O comprador deixa tudo assim como está (a roupa espalhada, a forma oca dos corpos nas camas desfeitas, os pratos do almoço interrompido etc.) e se dedica a adivinhar cada detalhe da existência de seus predecessores. Claro, comecei esse romance logo após a morte de meus pais. Isso me leva de volta ao clima comum aos dois filmes: não sou muito fã do sobrenatural, mas confesso o seguinte. Numa casa que já abandonei, em Brookline (EUA), eu tinha construído um quarto-biblioteca que evocava, descobri depois, a biblioteca da casa de minha infância. Um dia, Maria, a jovem mulher que nos ajudava a cuidar da casa (e que dizia ser dotada de poderes mediúnicos), anunciou: "Doutor, seu pai está na biblioteca". "Meu pai está morto", respondi. Fui com ela até a biblioteca. "Ele está lá, sentado", apontou Maria. Eu não via nada e não acredito em espíritos, mas perguntei, sem brincadeira nenhuma: "Poderia falar com ele?". Maria: "Não, mas lhe garanto que ele está sorrindo, feliz".

ccalligari@uol.com.br

Edson Mahfuz disse...

valeu, emiliano. bela contribuição.

Felipe Schneider disse...

Edson,

Essa técnica de iluminar as fachadas de vidro por fora com luz fluorescente... tu viu isso em algum lugar, funcionando? Tem imagens disso?

Felipe.

Edson Mahfuz disse...

encontrei isso no livro: Richard Neutra. Un lugar oara el orden, de José Vela Castillo. há algumas fotos em preto e branco, infelizmente imagens diárias. seria interessante ver fotos noturnas mostrando a solução, mas procurei e n encontrei. quem sabe na fundação neutra.

.malleus. disse...

Adorei o Post sobre o Neutra, era o que eu realmente estava procurando...
Faço história e teoria II em arquitetura e a nossa professora nos deu a tarefa de pesquisar e incorporar um arquiteto modernista... Durante essa semana serei o Richard Neutra :D

Eu encontrei um video sobre ele no youtube "http://www.youtube.com/watch?v=nKT_s2Algx0" se lhe interessar.

Até mais.