PORTO ALEGRE ENSINA COMO NÃO FAZER URBANISMO

Na postagem anterior foi mostrado um projeto teórico criando infra-estruturas para a vida cotidiana de Porto Alegre. O local não foi escolhido por acaso: o Arroio Dilúvio e o seu entorno imediato é um problema urbanístico esperando solução, pela sua extensão (10km), pelas atividades que acontecem ao seu redor, pelas áreas da cidade conectadas por ele, pelo seu potencial como espaço público que poderia qualificar enormemente a vida de quem mora nas suas proximidades. 

Pois bem, a administração de Porto Alegre (ou seria ‘administração‘?) nunca considerou esse como um problema importante, talvez por não ter a menor idéia de como se identifica e trata um problema urbanístico desse porte. 

Esta afirmação é fundamentada pelas várias iniciativas isoladas que surgem de tempos em tempos em tempos relacionadas ao Arroio. Num momento pinta-se as pontes que cruzam o Arroio, noutro lança-se edital para pintar a proteção dos taludes – tentativa vã de disfarçar a feiúra de uma solução rejeitada por quase todos –, a seguir surge a idéia de criar uma ciclovia e mais recentemente a de construir uma proteção lateral para proteger os ciclistas de uma hipotética queda no Arroio. Embora todas essas iniciativas sejam mal pensadas e executadas em si mesmas (voltarei a elas logo) o principal problema é sempre o mesmo: cada uma é vista como um problema individual e não como parte de um sistema maior que inclui o Arroio propriamente dito (sua água extremamente poluída), suas bordas, o passeio em ambos os lados de cada via, as pontes, a nascente do Arroio, o encontro com o lago Guaíba, iluminação, mobiliário urbano, etc. 

O ciclismo está na moda. Há muitos defensores do uso da bicicleta como meio de transporte urbano, o que está muito bem, na minha opinião. Inúmeras cidades européias implantaram sistemas de compartilhamento de bicicletas, iniciativa que começa a ser também adotada nos Estados Unidos. Porto Alegre, cujos administradores e muitos habitantes imaginam como uma cidade linda e maravilhosa, não poderia ficar de fora dessa tendência. Portanto, vamos criar ciclovias. 

Mas – em Porto Alegre sempre há muitos ‘mas‘ – quem propõe e quem implanta nunca tem a visão global da coisa e por isso as ciclovias daqui são só uma faixa demarcada na pista de rolamento de algumas ruas e avenidas, nada mais. Essas pessoas não se dão conta de que para incrementar o uso de bicicletas é preciso muito mais que isso: é preciso criar ciclovias protegidas contra os veículos automotores, locais para as bicicletas serem estacionadas e até criar leis obrigando que os locais de trabalho ofereçam chuveiros para o asseio dos ciclistas que vão trabalhar de bicicleta, entre outras necessidades. Em suma, é preciso criar uma cultura relacionada ao ciclismo. Claro que nada disso é feito e as ciclovias já criadas acabam desaparecendo por falta de manutenção, como foi o caso de uma que atravessava a cidade passando pelo Parque Moinhos de Vento. 

A última iniciativa surpreendente foi a de criar uma proteção para quem anda de bicicleta às margens do Arroio, proposta pela EPTC (Empresa Pública de Transportes e Circulação). Em primeiro lugar, porque a EPTC está decidindo alterações que deveriam ser responsabilidade do setor de urbanismo? Sim, a EPTC tem a ver com o transporte público e pode sugerir que algum elemento relacionado ao tema seja criado, mas a definição do mobiliário urbano não pode ser sua atribuição. Para isso existem as secretarias de Planejamento e Obras.

Proposta original da EPTC. (Foto: Andrey Cidade/Divulgação PMPA)

Tanto não pode que a proposta de criação de uma cerca de madeira que funcionasse como guard-rail foi recebida com surpresa e indignação por todos e logo virou motivo de piadas. Posso imaginar o papel ridículo que Porto Alegre faria se vários quilômetros daquela cerca absurda fossem construídos. Porque absurda? Material inadequado, tanto pelo tamanho como pelas associações com a atividade agropecuária, tamanho excessivo – não é necessário usar elementos daquele tamanho para obter o mesmo resultado – que resultaria numa barreira visual. A construção do monstrengo representaria um constrangimento para todos que tenham pelo menos uma noção superficial do que é urbanizar uma cidade. 

Cabe aqui fazer algumas perguntas sobre a necessidade da proteção. Elementos mais baixos como um meio-fio não resolveriam? Uma solução integrada com o paisagismo não seria mais completa e duradoura? Não seria tão ou mais importante proteger os ciclistas do trânsito de veículos auto-motores?

Duas imagens da mesma avenida de New York. A da esquerda mostra a ciclovia implantada, em que os carros estacionados funcionam como proteção para as bicicletas. (Foto: Cities for People, Jan Gehl)

Dois ou três dias de protestos nos jornais, rádios e redes sociais foram suficientes para que a EPTC recuasse na sua tentativa de tornar Porto Alegre motivo de piada nacional. As primeiras declarações dos seus representantes foram dignas de constar em alguma antologia do besteirol administrativo/político mas alguém com bom senso deve ter se dado conta do erro original. 

Logo ficamos sabendo que o IAB/RS estava negociando com a EPTC para realizar um concurso e chegou a ser comentado que haveria um concurso tratando da avenida como um todo. Logo tudo se esclareceu: haverá um concurso apenas para a proteção lateral da ciclovia, com um prazo de no máximo uma semana para apresentação de propostas (!). 

Ou seja, o pior foi evitado e o concurso vai permitir que uma solução melhor seja adotada – qualquer coisa é melhor do que aquilo!. Por isso temos que agradecer ao IAB/RS. Contudo, na prática nada mudou. O rebuliço criado pela proposta grotesca e esdrúxula da EPTC não serviu para as ‘autoridades‘ se darem conta de que soluções parciais não farão a cidade melhorar a qualidade dos seus espaços urbanos. A exiguidade do prazo do concurso já é um indicativo da importância que nossos administradores dão ao problema: algo que pode ficar lá por décadas deverá ser definido em apenas uma semana. 

Administrar uma cidade não é para amadores. Até que tenhamos a mesma sorte de Curitiba e do Rio de Janeiro – que tiveram técnicos competentes administrando a cidade por um tempo suficiente para a materialização de boas idéias – continuaremos sendo exemplos negativos de administração urbanística.

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6 comentários:

maria tomaselli disse...

parece mentira, mas nossa arquitetura aqui é horrível! porque será? basta olhar para a ásia! e essa cerca de CTG! cruzes......

Edson Mahfuz disse...

to,
há muitas razões para a nossa arquitetura ser tão ruim. uma delas é que a profissão de arquiteto não é respeitada, em parte porque os próprios arquitetos não se dão ao respeito:
- por aqui ninguém entende o que é arquitetura ou urbanismo, basta ver como a prefeitura e suas secretarias lidam com a cidade;
- ninguém quer pagar o que vale um projeto porque sempre há alguém disposto a cobrar menos;
- todos se julgam “um pouco arquitetos“ e alteram os projetos sem consultar o autor;
- o RS é um estado conservador nesse tipo de coisa. só é bom o que vem de fora ou supostamente foi inspirado pelo que vem de fora;
- uma longa lista de etceteras.

por outro lado, a ásia não é uma boa referência, na minha opinião. pode até ser que individualmente se esteja construindo alguns edifícios de qualidade mas o conjunto em geral é um desastre. estão substituindo cidades milenares por aglomerações ditadas pelo interesse comercial e projetadas pelas estrelas da arquitetura mundial. o mesmo vale para zoológicos arquitetônicos como Dubai e Abu Dhabi.

abraço.

Lauro Maciel disse...

Porto Alegre é ruim em comparação com Curitiba. Agora imagina Caxias do Sul, que é ruim em comparação com...Porto Alegre!

urbanascidades disse...

Edson, é muito bom ler um colega se manifestar com tanta propriedade sobre a nossa profissão. Os poderes constituídos (vide caso teatro da Ospa), a mídia (sempre deturpando ou se fazendo "double" de arquitetos) e a população em geral e os clientes que não (re) conhecem a profissão e nos julgam decoradores de "revistas" ou um mal necessário para executar sua obra, tornam uma profissão que nos apaixona desde a época da faculdade e ao longo de nossas vidas profissionais o que somos hoje, meros burocratas do projeto obrigados a cumprir ordens para sobreviver.Precisamos chegar a algum tempo de exercício de profissão e muita personalidade para tentar implementar nossas ideias e selecionar trabalhos, abrindo mão de projetos e clientes que não nos satisfaçam."Companheiro a luta continua!"
Arquiteto Paulo Bettanin, CAU/RS ?????????

Alexsandra disse...

se porto alegre ensina como não fazer urbanismo, venha conhecer florianópolis e tenha uma aula de doutorado...

Gilliane Rossi disse...

Por isso que me dedido como academica, nao quero ser categorizada de Arrumadora de Puff