QUEREMOS A RUA DE VOLTA


No segundo semestre de 2009 visitou Porto Alegre o consultor em transportes e ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa. Entre vários comentários, criticou negativamente a qualidade dos passeios públicos da cidade, os quais considerou típicos de uma cidade de terceiro mundo, por suas dimensões insuficientes, por estarem muitas vezes ocupadas por automóveis e por vendedores ambulantes.


Eu ainda acrescentaria um outro aspecto que me parece importante: a baixa qualidade do design desses espaços públicos, representada pelos materiais utilizados, pelo modo como são dispostos, e pelo equipamento urbano que neles é colocado (bancos, postes, lixeiras, bicicletário, etc).

Embora nos dois casos nos referimos a coisas importantes, talvez o mais importante seja entender que as deficiências apresentadas pela grande maioria dos espaços públicos no Brasil são um sintoma de algo muito mais importante: a perda progressiva de importância do espaço público em nossas vidas.Há pelo menos duas décadas o espaço público (ruas, praças, largos, etc) vêm se tornando mais e mais perigosos e a vida pública – em que as pessoas convivem com os seus semelhantes em lugares aos quais qualquer um tem acesso – vai migrando para espaços fechados e controlados em que há atividades coletivas mas não mais públicas.


Se não valorizamos o espaço público, porque investir energia, conhecimento e recursos nele.? Deve ser assim que pensam nossas autoridades, a julgar pelo modo como tratam nossos passeios e praças. Trata-se não apenas de um problema cultural como também de segurança pública. De um lado há culturas mais afeitas ao uso do espaço público que outras, mas qualquer que seja o grau em se use esses espaços, da qualidade da sua urbanização vai depender o seu sucesso ou fracasso. Por outro lado, de nada nos adianta projetos urbanos de qualidade se, ao usar o espaço público , estivermos sujeitos a ser assaltados a qualquer momento.

Há lugares no mundo em que as coisas são diferentes. Até no Rio de Janeiro, cidade cujo nome é muitas vezes associada ao crime, encontramos um uso intenso do espaço público, usado como área de estar e lazer pela a maioria dos habitantes da sua Zona Sul. Não é à toa que há um razoável cuidado na implantação e manutenção dos elementos que qualificam o uso desses espaços. Na Europa isso é ainda mais marcante. A cada ano se pode constatar a melhoria das condições de uso do espaço público europeu, sendo muito comum que os passeios sejam alargados em detrimento da faixa dedicada aos automóveis.

O que precisamos fazer no Brasil é lutar por maior segurança urbana para que a rua nos seja devolvida – segundo Paulo Francis, “perdemos a rua” a partir dos anos de repressão política –, ao mesmo tempo em que temos que exigir que nos sejam dadas cada vez melhores condições de usá-la.

A seguir, alguns comentários sobre a qualidade do espaço público em Barcelona, cidade exemplar no que se refere ao espaço público.

Rambla Poble Nou: local para sentar, ler, caminhar, tomar café, fazer compras de primeira necessidade. Notem que esse não é um bairro nobre, mas um simples bairoo de classe média de Barcelona.
Qualquer sobra de espaço é pretexto para que se crie um recanto qualificado. Piso, postes, muro, banco, lixeira, todos integrados por um projeto.
Em qualquer rua pode-se colocar bancos e tornar o ambiente mais amigável. Uma rua do bairro de Grácia, Barcelona.
Um pedaço da beira-mar no bairro da Barceloneta, Barcelona. O mesmo cuidado encontrado no resto da cidae na disposição das árvores, dos bancos e na pavimentação.
Neste pedaço do porto de Barcelona, uma aula de como qualificar um espaço público. Tudo é pensado como um conjunto. Só exemplificando, vejam no canto esquerdo da foto o conjunto que formam o banco no primeiro plano, as duas árvores, o retângulo gramado e, na diagonal, a grelha de recolhimento da água da chuva.
Por fim, um banco em granito e aço. Além dos materiais nobres, coisa inimaginável por aqui (logo seria roubado e vendido por uns trocados), o modo em que as dimensões do banco e da pavimentação estão em perfeito acordo.
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8 comentários:

maryoxinaga disse...

Muito boas as fotos de Barcelona. Aliás, no bairro de Poblenou acontecem inovações na infra-estrutura urbana, pelo que andei lendo, e que são aplicáveis no Brasil, dependendo da vontade politica, que anda em baixa quando se trata de beneficio público. Eu defendo a supressão dos estacionamentos nas vias publicas no meu blog www.qualidadeurbana.blogspot.com e no www.eficienciaurbana.blogspot.com

Edson Mahfuz disse...

a supressão dos estacionamentos nas vias públicas será uma boa medida se vier acompanhada por medidas compensatórias, como a melhoria do transporte público e a criação de áreas de estacionamento alternativas (em subsolo, no miolo de quarteirões, etc)

Ayesha Luciano disse...

O espaço público no Brasil realmente é muito desvalorizado, mas percebo isso acontecendo principalmente nas cidades de médio ou grande porte. O que não é o caso aqui. Moro em Santos Dumont, uma cidade pequena em Minas Gerais. Aqui o espaço público é utilizado com frequencia considerável: a Praça Cesário Alvim, a Praça da Bíblia, ou mesmo as ruas mais tranquilas são locais de vivência muito utilizados. Mas seria incontestavelmente melhor se a qualidade dos espaços fosse proporcional ao uso... Aqui em Santos Dumont a praça Cesário Alvim (a praça da matriz) é uma vergonha. E advinha qual a grande ideia da prefeitura para "reurbanizar" a praça: mobiliário de qualidade?Paisagismo? Equipamentos de cultura e lazer? Nãaaaao!!! O "projeto" é mudar o formato dos canteiros e o desenho do piso para que estes tomem a forma de um avião... Acredita nisso?

marilice disse...

Olá Mahfuz, gostei da sua percepção quanto á Barcelona, mas senti falta de fotos do Rio de Janeiro. Como visito frequentemente a cidade, me sinto muito à vontade andando à pé. A revitalização urbana dos Bairros de Ipanema e Leblon, por exemplo, elaborada por arquitetos, deu revitalização ás áreas e uma ótima qualidade de desenho urbano.

Edson Mahfuz disse...

oi marilice,

tens toda a razão. o rio (ou, mais precisamente, partes da zona sul) poderia muito bem ilustrar esta postagem.

dois argumentos em minha defesa: 1. numa postagem dessas não há espaço para tanta coisa e 2. já havia tocado nesse assunto numa postagem anterior (http://tinyurl.com/ycvu6sn), que não tens obrigação de conhecer, é claro.

mas vale a sugestão para um próximo texto centrado no rio.

abraço.

Jorge Luis Stocker Jr. disse...

Os empreendimentos imobiliários e comerciais vendem a "segurança", agregada a seus espaços fechados.
O que estão vendendo é apenas a intensificação da insegurança lá fora.

Carla Amorim disse...

Eu tenho um sonho cor-de-rosa. O de que todos os nossos prefeitos fossem obrigatoriamente Urbanistas.
:-)

Edson Mahfuz disse...

carla,

apoiado. ou que pelo menos os secretários de urbanismo fossem arquitetos/urbanistas e que não fossem substituídos por razões estúpidas como dar um cargo a alguém do partido que apóia o que detém a prefeitura.

o grande problema dos nossos políticos é que não governam para a sociedade, mas para si mesmos, seu grupelho e o "partido".