PORTO ALEGRE, CIDADE MARAVILHOSA E LINDA???


É comum ouvir-se, em entrevistas no rádio e nos jornais, pessoas se referindo a Porto Alegre como “cidade maravilhosa”. Confesso ser tomado de perplexidade quando ouço isso. Afinal, o dicionário Aurélio define maravilha como “ato ou fato extraordinário, surpreendente, prodigioso” e o verbo maravilhar como “encher(-se) de admiração, assombro, pasmo”. Minha perplexidade vira pasmo ao ouvir aquelas e outras pessoas se referindo à cidade como “linda”, pois na minha modesta opinião nenhum daqueles adjetivos é aplicável a Porto Alegre.


Antes que o leitor pense que o assunto desta postagem se restringe a Porto Alegre, me apresso a sugerir que, trocando o nome da cidade, a discussão pode ser válida para muitos outros lugares.

O que pode estar por trás daquelas avaliações tão surpreendentes? Privação de sentidos? Transferência de uma relação afetiva com a cidade e seus habitantes para a sua constituição física? Falta de um referencial mais amplo, coisa que só se adquire visitando outros lugares? Falta de critérios precisos para identificar o que é belo e adequado?

Creio que, deixando de lado a privação de sentidos, há um pouco de cada uma das outras razões nas declarações exageradas sobre Porto Alegre. Uma pista para isso foi fornecida por uma edição recente do programa Fantástico, em que verdadeiras barbaridades dos pontos de vista ecológico, histórico e cultural – como, por exemplo, construir um enorme edifício de apartamentos no Pão de Açúcar – eram aprovadas pelos entrevistados, que se declaravam dispostos a viver em tais edificações.

É comum recebermos arquitetos estrangeiros no pós-graduação da Ufrgs, gente ávida por conhecer a arquitetura e o urbanismo das cidades onde vão. Pois bem, claro que há o que mostrar por aqui, mas a relação é bem curta: a avenida Borges de Medeiros, com seus excelentes edifícios e o magnífico Viaduto Otávio Rocha, admirado por todos; a Praça da Matriz; a Praça da Alfândega, com seus museus e adjacências (como a Casa Mário Quintana), o Hipódromo do Cristal; o Cemitério São Miguel e Almas (outro favorito dos visitantes) e, mais recentemente, a Fundação Iberê Camargo. Além disso, apenas alguns passeios genéricos pelo centro da cidade, pelo Moinhos de Vento e pela zona sul, e podemos levá-los de volta ao aeroporto. Me parece pouco para uma cidade do tamanho de Porto Alegre.

Como caracterizar essa ausência de interesse da nossa cidade? Vejamos algumas características daquelas cidades que merecem ser chamadas de maravilhosas e lindas.

1. Relação positiva com a natureza na qual está inserida. Não é o caso de Porto Alegre, que há décadas deu as costas para o lago Guaíba e tudo que faz em relação à sua costa é mal feito.

2. Espaço público qualificado. Como mencionado na postagem anterior, as calçadas são mal cuidadas, o mobiliário urbano é inexistente ou, quando há, é de baixa qualidade. Por aqui chamamos de praça qualquer espaço aberto que tenha um pouco de grama, uma quadra esportiva e alguns brinquedos infantis. Nossos melhores espaços públicos ainda são os criados há mais de 50 anos.

3. Infra-estrutura comunitária. Onde estão as bibliotecas de bairro, os centros de convivência, os centros esportivos e outros elementos importantes para a vida urbana em comunidade?

4. Segurança pública. A sua falta é um mal que assola a maioria das cidades médias e grandes brasileiras, mas é um item a considerar no assunto presente.

5. Preservação e re-qualificação do patrimônio histórico. A bela cidade que Porto Alegre foi até os anos 1950 vai rapidamente desaparecendo e os belos edifícios ecléticos sempre são substituídos por arquitetura comercial de baixíssima qualidade. Os poucos edifícios históricos transformados em sedes de instituições culturais não chegam a compensar a perda de uma infinidade de outros edifícios que davam à cidade uma fisionomia própria.

6. Imagem global consistente. Uma frase um tanto obscura, que tenta se referir àqueles pedaços de cidade em que o todo é mais do que a soma de suas partes, os quais para o visitante são percebidos como se fossem uma entidade única. Exemplos? O bairro de Pocitos, em Montevidéu, Copacabana, Palermo, em Buenos Aires, o centro histórico do Rio de Janeiro, o centro de Salvador e do Recife, e tantos outros lugares do mundo, para ficar apenas na América do Sul.

Porto Alegre há muito deixou de ser assim. Ela manteve sua consistência urbanística durante seu processo de modernização (primeira metade do século passado) e mesmo durante a vigência do seu 1º Plano Diretor (1959-79) a arquitetura ainda era controlada pelo urbanismo. A partir de então a cidade virou uma colcha de retalhos e cada quarteirão é testemunho de planos urbanísticos aos quais não é dado tempo suficiente para sua consolidação. A cada poucos anos mudam as regras do jogo urbanísticos, com a consequência de que Porto Alegre é hoje uma cidade sem qualquer uniformidade, com a exceção da área central, que conseguiu manter parte do seu caráter.

Às suas deficiências em relação aos aspectos mencionados acima se soma um conformismo que impede o surgimento de melhor arquitetura: não se busca a excelência naquilo que se faz. Parece suficiente fazer qualquer coisa e dar-lhe um nome para que se pense que atingiu seu objetivo. Ilustro o que digo com os espaços abertos de Porto Alegre: não é suficiente dar nome de praça a um descampado para que o seja. A urbanização dos espaços urbanos é deficiente, pouco cuidada e usa materiais que se degradam rapidamente. Nesse aspecto estaria bem olhar para a Europa para ver como fazem essas coisas por lá. Muitas vezes, fazer mal ou bem custa a mesma coisa.

Obviamente, Porto Alegre tem o seu encanto, mas ouso dizer que esse encanto (salvo em raríssimas exceções como as que mencionei acima) não é algo objetivo, palpável. O encanto de Porto Alegre tem a ver com ligações afetivas e trocas culturais, não com sua constituição física. Daí o meu espanto quando ouço pessoas descrevendo-a como “maravilhosa” e “linda”.

Abaixo, algumas imagens do que é bom em Porto Alegre.








Créditos das imagens, pela ordem: Av. Borges de Medeiros (Vicopoa), Casario da Rua Olavo Barreto Viana (Emiliano Homrich da Fontoura), Casa de Cultura Mário Quintana (Cleber Lima), Edifício Mesbla (RVPoa), Igreja Nossa Sra. das Dores (Cleber Lima), Praça da Alfândega/Margs (RVPoa), Fac. de Medicina da Ufrgs (Cadinho Andrade) e Prefeitura Municipal de Porto Alegre (Cesar2f).



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13 comentários:

maryoxinaga disse...

Fotos muito bonitas, Mahfuz, parabéns.
As cidades tem um grande potencial de reurbanização e qualificação. Para tanto, os urbanistas poderiam repensar alguns conceitos sedimentados e aceitos como parte inerente e vital do meio urbano.
Os tempos mudaram mas o urbanismo parece ter ficado parado no tempo no que se refere ao usuário. Os nossos estudiosos pouco ou nada evoluiram em relação ao lote urbano, uma figura anacrônica que parece resistir incólume nas nossas cidades.
Precisa ser repensada.

Alex Couri disse...

ola, estou adicionando seu blog a minha rede..

quase todo arquiteto é indignado com sua propria cidade, pq será?

Jorge Luis Stocker Jr. disse...

Concordo com o texto. Tua conclusão é sensata: realmente o que sentimos pela cidade é muito mais afetivo do que qualquer outra coisa.

Porto Alegre tem muitos pontos interessantes. Muitos. Mas no contexto geral, se tornou uma cidade confusa, feia, com dificuldades de ser "lida" pelos visitantes.

Ver a beleza de Porto Alegre requer hoje, e a cada dia mais, pré-requisito: reconhecimento da história, do contexto de algumas obras, etc. E muita imaginação também.

O aspecto de "produto imobiliário" da produção atual é muito lamentável, e quem perde é a cidade. Nem entrando no problema de setorização, escala, etc; o problema começa pela péssima arquitetura assombrando a cidade.

Jorge Luis Stocker Jr. disse...

E quanto a controversa relação da cidade com o ambiente natural: Porto Alegre poderia ter sido uma cidade de beleza ímpar, mas os sucessivos aterros e ocupação massiva acabaram fazendo a cidade se virar de costas para o rio.
Fica o comentário do Michael George Muhall, em 1873:

"Porto Alegre

None can have a idea what a paradise this place is. I have never seen anything so charming as the scenery by the land and water all around."(...)
"Another pleasant ride from town is to the chapel of Menino Deos, overlooking the southern bay of the Guayiba estuary. The view at early morning is delightful, the mists slowly rising from the water, over which the shadows of the coulds sweep in fantastic forms (...) If you ascend to Morro do Cristales or Belen you will also find lovely panoramas, as indeed you will from any commanding point in this earthly paradise."

Inacreditável, mas Porto Alegre já foi "fantástica"!

Edson Mahfuz disse...

obrigado pelos comentários. já começava a achar que assunto tão polêmico ficaria sem opiniões dos leitores.

Bianca Pêra. disse...

Porto Alegre tem um imenso potencial que não é aproveitado. Mas tratando-se de uma metrópole eu continuo considerando a mais linda e aconchegante do país. Talvez seja um pouco de bairrismo da minha parte, mas não conheço outra cidade em que eu me sinta tão em casa além da que eu já moro. E que não é Porto Alegre! hehehehehe
Gostei muito do teu blog! Parabéns! :)

Cristiana Azevedo disse...

Querido Edson,
Acabo de conhecer teu blog e me enche de esperanca saber que mais profissionais tem coragem em tocar no tema "sustentabilidade na arquitetura" desmitificando algumas questoes.
Pois é, nao basta um teto verde... vamos seguir na luta pela verdadeira arq. sustentável, abrindo os olhos para a verdade nua e crua e lutando contra a jogada de marketing que se transformou todo esse blá blá blá de green bilding...
Estamos em counicacao!!
Cris

urbanascidades disse...

Oi Edson, como colega e conterraneo fiquei muito feliz de conhecer teu blog. Estou começando um blog de urbanismo, cultura e arquitetura em Porto Alegre (urbanascidadespoa.blogspot.com) e te adicionei como referencia. Já tínhamos um blog autoral (arquiteturadoimovel. blogspot.com), mais voltado para arquitetura, decoração e nossos projetos.
Abraço,Arquiteto Paulo.

Camila Chalon disse...

Oi Profº Edson,

Primeiro estou amando ler teu blog, sobre Porto Alegre, com toda a certeza sinto que essa beleza e maravilha toda vem diretamente ligada as nossas relações afetivas com as pessoas e a cidade, acabei de voltar de uma viagem Paris, Londres e com certeza temos muito para aprender, mas ao chegar no aeroporto aquele sentimento..."Porto Alegre me dói não diga a ninguém, Porto Alegre me tem, não leve a mal a saudade é demais é lá que eu vivo em paz... Porto Alegre é demais!"
Não adianta nós arquitetos queremos o melhor para a cidade, enxergamos ela de forma diferente.

Abraços

Camila

matasnativas disse...

Porto Alegre é, hoje, uma cidade cada vez mais desarborizada e povoada por espigões disformes. Nada parecido com a Porto Alegre da minha infância, com sua luxuriante vegetação subtropical, ruas tranqüilas, arquitetura composta por casas, algumas muito simples e de madeira, outras portentosas mansões em meio a amplos jardins. É a mais feia das capitais do sul: Curitiba possui algum tipo de ordem e de planejamento, e Florianópolis está à beira do mar, o que sempre ameniza as imbecilidades do "progresso".

Edson Mahfuz disse...

Camila,

estou de acordo. é uma relação afetiva, coisa que eu também sinto, e que imagino a maioria das pessoas sinta em relação a sua própria cidade, não importa qual seja.

mas, falando de modo geral para o porto-alegrense em geral, não custa não confundir as coisas e entender que, em termos de beleza urbana, estamos muito longe ser até mesmo uma cidade média.

abraço.

Edson Mahfuz disse...

matas nativas,

tens razão. em Porto Alegre houve um processo de "enfeiamento"progressivo, pois a cidade antiga era muito bonita, com o seu urbanismo homogêneo e uma arquitetura média de muito boa qualidade. nos últimos 50 anos, o urbanismo gerou uma confusão visual e a qualidade da arquitetura desapareceu, sendo a norma hoje a substituição de edifícios muito aceitáveis por arquitetura comercial abominável.

as mudanças urbanísticas dependem essencialmente da política. enquanto não houver políticos com uma clara visão do que é uma cidade boa para viver ficaremos na mesma.

Toon Carvalho disse...

Nem uma mae acha seu filho feio eh o mesmo que quem mora aqui em poa nos ateh vemos que ta tudo degradando mas nos amamos e vemos e sentissemos estar na melhor cidade do mundo.