O AFETO BROTA DO ENTENDIMENTO

Um tema preocupante para os arquitetos: como nossos projetos são recebidos pelo resto da sociedade. Sendo uma profissão que, por natureza, presta serviços à sociedade, o diálogo com aqueles que a usam é fundamental para todos envolvidos.

Em geral, a relação das pessoas com a arquitetura é baseada na experiência pessoal de cada um, naquilo que conhece. Ou seja, em pré-conceitos. Quando defrontados com algo fora do comum, reagimos associando a novidade a algo já conhecido. Isso é que faz com que dois edifícios governamentais em Porto Alegre sejam conhecidos como “cristaleira” e “chocolatão”.

Os mesmos pré-conceitos fazem que muitos edifícios modernos sejam chamados pejorativamente de “caixas” e que qualquer parede e/ou muro sem aberturas seja estigmatizado como “paredão”.

A minha hipótese aqui é que se essas mesmas pessoas tiverem um pouco de paciência e se dispuserem a um envolvimento intelectual e emocional mínimo com algum edifício ou objeto de que não gostam à primeira vista, se procurarem entender a sua lógica, vão acabar gostando dele.
Afinal de contas, um dos aspectos mais importantes da arte moderna (arquitetura incluída) é a exigência de participação do usuário/observador para que a obra se complete; em outras palavras, para que exista.

Dou como exemplo o prédio da Loja Forma, em São Paulo, projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que recentemente recebeu o Prêmio Pritzer, uma espécie de Nobel da arquitetura. A maioria das pessoas diria imediatamente que a Loja Forma é uma mera “caixa”, um objeto pouco interessante, etc. Minha opinião é divergente, pois considero essa obra uma das melhores construídas no Brasil nos últimos 30 anos. Vejamos por quê.

Longe de ser um capricho do autor, o projeto de Mendes da Rocha é uma resposta precisa aos seguintes problemas: dar destaque à loja em uma avenida extremamente movimentada e cheia de edifícios de todas as formas e cores; chamar atenção para os produtos vendidos na loja em um local em que as pessoas passam quase sempre de carro; criar o máximo de vagas de estacionamento no próprio terreno, pois não há como estacionar na avenida.

A resposta do arquiteto pode ser assim descrita: eleva o edifício, permitindo que se estacione sob ele, de modo confortável e abrigado; cria uma única vitrine, elevada e ocupando toda a largura do edifício, o que facilita sua visualização pelos que passam de carro e concentra a visualização dos produtos em uma faixa; simplifica a forma global do prédio, fazendo com que se destaque do caos visual circundante, por força da sua intensidade formal.

Entendida a sua lógica, não fica mais fácil gostar desse edifício?


NOTA: a foto que ilustra este texto é de autoria de Nelson Kon (www2.nelsonkon.com.br), a quem agradeço a permissão para utizá-la em várias situações.
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OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se, para eu poder saber com quem estou me comunicando.

6 comentários:

to disse...

edson, muito bem explicado!
oq faz uma coisa se resaltar, é seu espaço de repouso em volta.
hoje em dia estamos sufocados por imagens e informações, então, "menos é mais" é mais atual do qeu nunca

Anônimo disse...

Mahfuz, quando li o título do artigo de hoje exultei! Pensei que falarias sobre a relação de afeto homem-espaço, bastante discutida na psicologia ambiental. Não é bem isto, mas ainda assim adorei, porque entendo que precisamos começar a pensar formas de "educar" não apenas nosso pobre povo leigo no assunto, mas também muitos profissionais (investidores, construtores, engenheiros e até arquitetos). E isto que tu mostras hoje não acontece apenas em relação aos projetos arquitetônicos, mas também em relação a tecnologias, sistemas construtivos e muitas tantas inovações que tentamos adotar na construção civil (veja o exemplo do drywall, entre outros). Qual a tua sugestão para um início de mudança?
Tenho indicado teu blog para muitos amigos e sei que estão todos encantados com as discussões. Porque não organizamos um encontro, uma imersão, um retiro para discutir tantas questões aqui expostas por ti (e que todos nós estamos ávidos por discutí-las em profundidade) e propor algumas soluções (ou sugestões)? Margaret Jobim

Giovani disse...

A Loja Forma segue um conceito, uma maneira de projetar, adotada por Paulo Mendes da Rocha em seus projetos: criatividade sendo objetivo e simples. Projetos dele como o MUBE tem uma enorme força arquitetônica e uma forma simples e de fácil entendimento e apego.
Quando digo simples, quero dizer uma forma sem curvas, entrâncias, reentrâncias, etc ... que nos dão um nó na visão e que muitos entendem por "criatividade".
Paulo Mendes da Rocha sim é um arquiteto criativo.
Abraço e parabéns por mais esse texto.
Arq. Giovani Barcelos

Edson Mahfuz disse...

maria, margaret e giovani,
obrigado pelos comentários.

pois é, como pode uma coisa tão simples ser tão pouco entendida? o mundo já é cheio de estímulos visuais que só formas intensas e elementares vão conseguir se destacar.

o mundo parece estar sofrendo de uma espécie de "interpretação precoce". tudo é avaliado muito rapidamente, sem que se dê um tempo mínimo para entender o que se está vendo.

não vejo outra saída senão pacienciosamente tentar chamar a atenção para a lógica constitutiva, os valores, a utilidade, etc., das coisas que são importantes, e aí incluo não apenas a arquitetura, mas a arte, o design, a tecnologia e outros produtos da criatividade humana.

todos temos nossos pré-conceitos, mas ganharíamos muito não deixando que eles dominem todas as nossas percepções e opiniões.

abraços.

Guilherme S. & Ricardo Oliveira disse...

Estudantes e arquitetos, somos todos responsáveis pela manutenção da ignorância arquitetônica. A falta de veiculações na mídia de artigos que expresse, apresente e descreva a boa arquitetura, traz como consequência a total falta de capacidade de um cidadão poder realizar uma simples análise sobre uma obra. Parabéns pela iniciativa, textos simples e muito informativos

Fábio Russo & Diogo Franciosi disse...
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