REVERTENDO A SEGREGAÇÃO E O ISOLAMENTO

Há muitas décadas tem sido comum no Brasil copiar o que acontece nos Estados Unidos. Isso acontece em todas as áreas e não seria diferente na arquitetura e no urbanismo. Assim, ao longo da segunda metade do século passado “importamos” uma série de coisas, na esperança de elevar o nosso status como país pela adoção de práticas associadas à maior noção do mundo. Foi assim com os edifícios tipo “caixa de vidro”, na origem associados ao poder das grandes corporações multinacionais, com as comunidades muradas, com a suburbanização – ou seja, o afastamento dos centros urbanos – e com a prática de vestir edifícios contemporâneos com elementos históricos.

Dois fatos acompanham essas importações: acontecem sem maiores adaptações às condições locais e normalmente muito tempo depois de terem surgido por lá, quando já começam a ser rejeitadas na sua origem. Se poderia acrescentar que as importações são feitas de modo acrítico, sem avaliar o seu impacto a médio e longo prazo, coisa que é natural em um tipo de sociedade que vive olhando para o próprio umbigo e cujo objetivo é quase sempre o lucro imediato.

Agora surge nos Estados Unidos algo que mereceria ser importado, mesmo que venha de encontro a algumas importações anteriores. Se trata de um movimento que visa corrigir alguns dos muitos problemas dos subúrbios residenciais, que a partir das preocupações com sustentabilidade urbana têm se mostrado inteiramente deficientes.

Uma das medidas sendo tomadas visa encorajar a criação de bairros em que se possa fazer várias atividades caminhando. Para que isso seja possível as ruas devem ter continuidade e fazer parte de uma rede viária que conecte cada setor com as demais áreas residenciais e comerciais. Na imagem abaixo pode-se ver um típico exemplo de conjunto residencial suburbano, em que há somente uma conexão com uma via coletora, sendo impossível sair de lá sem tomar essa via. O que para muitos pode parecer uma vantagem é na verdade um problema que compromete a qualidade de vida no bairro.


Muitas prefeituras estão estipulando regras que dificultam esse tipo de urbanismo, tornando praticamente inviável o uso de ruas sem saída, que no jargão urbanístico são chamadas em todas as partes de cul-de-sac


Com isso estão reconhecendo oficialmente a ineficiência de um modelo de cidade espalhada e segregada, que leva a custos muito maiores de infra-estrutura e a altos níveis de poluição e consumo dos bens naturais, por exigir o uso permanente do automóvel – é comum que cada família residente nos subúrbios americanos tenha um carro por membro habilitado a dirigir.

Em postagens anteriores já critiquei a cidade segregada e fiz elogios aos bairros tradicionais mas gostaria de voltar ao assunto enfocando de outro modo o problema da segregação. Além de todos os problemas já mencionados de viver em um gueto, há um custo humano enorme a ser pago. Nas famílias que decidem viver em comunidades fechadas ou subúrbios longínquos – ambos quase sempre servidos por transporte público ineficiente ­– os jovens em idade inferior à mínima para dirigir e os idosos que não querem/podem mais dirigir se tornam dependentes de outras pessoas para se locomoverem. Uma consequência disso é o sacrifício profissional de um dos membros do casal, que se torna motorista não remunerado. Outra é a necessidade inescapável de possuir mais de um automóvel e de até contratar um motorista particular. O resultado final de situações como essa é uma baixa qualidade de vida, não importando se quem está envolvido nelas tem alto poder aquisitivo, que é muitas vezes o caso.

Portanto, aí está algo que poderíamos importar dos Estados Unidos e que resultaria em benefícios perceptíveis para a qualidade de vida de muitos brasileiros.

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PORTO ALEGRE, CIDADE MARAVILHOSA E LINDA???


É comum ouvir-se, em entrevistas no rádio e nos jornais, pessoas se referindo a Porto Alegre como “cidade maravilhosa”. Confesso ser tomado de perplexidade quando ouço isso. Afinal, o dicionário Aurélio define maravilha como “ato ou fato extraordinário, surpreendente, prodigioso” e o verbo maravilhar como “encher(-se) de admiração, assombro, pasmo”. Minha perplexidade vira pasmo ao ouvir aquelas e outras pessoas se referindo à cidade como “linda”, pois na minha modesta opinião nenhum daqueles adjetivos é aplicável a Porto Alegre.


Antes que o leitor pense que o assunto desta postagem se restringe a Porto Alegre, me apresso a sugerir que, trocando o nome da cidade, a discussão pode ser válida para muitos outros lugares.

O que pode estar por trás daquelas avaliações tão surpreendentes? Privação de sentidos? Transferência de uma relação afetiva com a cidade e seus habitantes para a sua constituição física? Falta de um referencial mais amplo, coisa que só se adquire visitando outros lugares? Falta de critérios precisos para identificar o que é belo e adequado?

Creio que, deixando de lado a privação de sentidos, há um pouco de cada uma das outras razões nas declarações exageradas sobre Porto Alegre. Uma pista para isso foi fornecida por uma edição recente do programa Fantástico, em que verdadeiras barbaridades dos pontos de vista ecológico, histórico e cultural – como, por exemplo, construir um enorme edifício de apartamentos no Pão de Açúcar – eram aprovadas pelos entrevistados, que se declaravam dispostos a viver em tais edificações.

É comum recebermos arquitetos estrangeiros no pós-graduação da Ufrgs, gente ávida por conhecer a arquitetura e o urbanismo das cidades onde vão. Pois bem, claro que há o que mostrar por aqui, mas a relação é bem curta: a avenida Borges de Medeiros, com seus excelentes edifícios e o magnífico Viaduto Otávio Rocha, admirado por todos; a Praça da Matriz; a Praça da Alfândega, com seus museus e adjacências (como a Casa Mário Quintana), o Hipódromo do Cristal; o Cemitério São Miguel e Almas (outro favorito dos visitantes) e, mais recentemente, a Fundação Iberê Camargo. Além disso, apenas alguns passeios genéricos pelo centro da cidade, pelo Moinhos de Vento e pela zona sul, e podemos levá-los de volta ao aeroporto. Me parece pouco para uma cidade do tamanho de Porto Alegre.

Como caracterizar essa ausência de interesse da nossa cidade? Vejamos algumas características daquelas cidades que merecem ser chamadas de maravilhosas e lindas.

1. Relação positiva com a natureza na qual está inserida. Não é o caso de Porto Alegre, que há décadas deu as costas para o lago Guaíba e tudo que faz em relação à sua costa é mal feito.

2. Espaço público qualificado. Como mencionado na postagem anterior, as calçadas são mal cuidadas, o mobiliário urbano é inexistente ou, quando há, é de baixa qualidade. Por aqui chamamos de praça qualquer espaço aberto que tenha um pouco de grama, uma quadra esportiva e alguns brinquedos infantis. Nossos melhores espaços públicos ainda são os criados há mais de 50 anos.

3. Infra-estrutura comunitária. Onde estão as bibliotecas de bairro, os centros de convivência, os centros esportivos e outros elementos importantes para a vida urbana em comunidade?

4. Segurança pública. A sua falta é um mal que assola a maioria das cidades médias e grandes brasileiras, mas é um item a considerar no assunto presente.

5. Preservação e re-qualificação do patrimônio histórico. A bela cidade que Porto Alegre foi até os anos 1950 vai rapidamente desaparecendo e os belos edifícios ecléticos sempre são substituídos por arquitetura comercial de baixíssima qualidade. Os poucos edifícios históricos transformados em sedes de instituições culturais não chegam a compensar a perda de uma infinidade de outros edifícios que davam à cidade uma fisionomia própria.

6. Imagem global consistente. Uma frase um tanto obscura, que tenta se referir àqueles pedaços de cidade em que o todo é mais do que a soma de suas partes, os quais para o visitante são percebidos como se fossem uma entidade única. Exemplos? O bairro de Pocitos, em Montevidéu, Copacabana, Palermo, em Buenos Aires, o centro histórico do Rio de Janeiro, o centro de Salvador e do Recife, e tantos outros lugares do mundo, para ficar apenas na América do Sul.

Porto Alegre há muito deixou de ser assim. Ela manteve sua consistência urbanística durante seu processo de modernização (primeira metade do século passado) e mesmo durante a vigência do seu 1º Plano Diretor (1959-79) a arquitetura ainda era controlada pelo urbanismo. A partir de então a cidade virou uma colcha de retalhos e cada quarteirão é testemunho de planos urbanísticos aos quais não é dado tempo suficiente para sua consolidação. A cada poucos anos mudam as regras do jogo urbanísticos, com a consequência de que Porto Alegre é hoje uma cidade sem qualquer uniformidade, com a exceção da área central, que conseguiu manter parte do seu caráter.

Às suas deficiências em relação aos aspectos mencionados acima se soma um conformismo que impede o surgimento de melhor arquitetura: não se busca a excelência naquilo que se faz. Parece suficiente fazer qualquer coisa e dar-lhe um nome para que se pense que atingiu seu objetivo. Ilustro o que digo com os espaços abertos de Porto Alegre: não é suficiente dar nome de praça a um descampado para que o seja. A urbanização dos espaços urbanos é deficiente, pouco cuidada e usa materiais que se degradam rapidamente. Nesse aspecto estaria bem olhar para a Europa para ver como fazem essas coisas por lá. Muitas vezes, fazer mal ou bem custa a mesma coisa.

Obviamente, Porto Alegre tem o seu encanto, mas ouso dizer que esse encanto (salvo em raríssimas exceções como as que mencionei acima) não é algo objetivo, palpável. O encanto de Porto Alegre tem a ver com ligações afetivas e trocas culturais, não com sua constituição física. Daí o meu espanto quando ouço pessoas descrevendo-a como “maravilhosa” e “linda”.

Abaixo, algumas imagens do que é bom em Porto Alegre.








Créditos das imagens, pela ordem: Av. Borges de Medeiros (Vicopoa), Casario da Rua Olavo Barreto Viana (Emiliano Homrich da Fontoura), Casa de Cultura Mário Quintana (Cleber Lima), Edifício Mesbla (RVPoa), Igreja Nossa Sra. das Dores (Cleber Lima), Praça da Alfândega/Margs (RVPoa), Fac. de Medicina da Ufrgs (Cadinho Andrade) e Prefeitura Municipal de Porto Alegre (Cesar2f).



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QUEREMOS A RUA DE VOLTA


No segundo semestre de 2009 visitou Porto Alegre o consultor em transportes e ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa. Entre vários comentários, criticou negativamente a qualidade dos passeios públicos da cidade, os quais considerou típicos de uma cidade de terceiro mundo, por suas dimensões insuficientes, por estarem muitas vezes ocupadas por automóveis e por vendedores ambulantes.


Eu ainda acrescentaria um outro aspecto que me parece importante: a baixa qualidade do design desses espaços públicos, representada pelos materiais utilizados, pelo modo como são dispostos, e pelo equipamento urbano que neles é colocado (bancos, postes, lixeiras, bicicletário, etc).

Embora nos dois casos nos referimos a coisas importantes, talvez o mais importante seja entender que as deficiências apresentadas pela grande maioria dos espaços públicos no Brasil são um sintoma de algo muito mais importante: a perda progressiva de importância do espaço público em nossas vidas.Há pelo menos duas décadas o espaço público (ruas, praças, largos, etc) vêm se tornando mais e mais perigosos e a vida pública – em que as pessoas convivem com os seus semelhantes em lugares aos quais qualquer um tem acesso – vai migrando para espaços fechados e controlados em que há atividades coletivas mas não mais públicas.


Se não valorizamos o espaço público, porque investir energia, conhecimento e recursos nele.? Deve ser assim que pensam nossas autoridades, a julgar pelo modo como tratam nossos passeios e praças. Trata-se não apenas de um problema cultural como também de segurança pública. De um lado há culturas mais afeitas ao uso do espaço público que outras, mas qualquer que seja o grau em se use esses espaços, da qualidade da sua urbanização vai depender o seu sucesso ou fracasso. Por outro lado, de nada nos adianta projetos urbanos de qualidade se, ao usar o espaço público , estivermos sujeitos a ser assaltados a qualquer momento.

Há lugares no mundo em que as coisas são diferentes. Até no Rio de Janeiro, cidade cujo nome é muitas vezes associada ao crime, encontramos um uso intenso do espaço público, usado como área de estar e lazer pela a maioria dos habitantes da sua Zona Sul. Não é à toa que há um razoável cuidado na implantação e manutenção dos elementos que qualificam o uso desses espaços. Na Europa isso é ainda mais marcante. A cada ano se pode constatar a melhoria das condições de uso do espaço público europeu, sendo muito comum que os passeios sejam alargados em detrimento da faixa dedicada aos automóveis.

O que precisamos fazer no Brasil é lutar por maior segurança urbana para que a rua nos seja devolvida – segundo Paulo Francis, “perdemos a rua” a partir dos anos de repressão política –, ao mesmo tempo em que temos que exigir que nos sejam dadas cada vez melhores condições de usá-la.

A seguir, alguns comentários sobre a qualidade do espaço público em Barcelona, cidade exemplar no que se refere ao espaço público.

Rambla Poble Nou: local para sentar, ler, caminhar, tomar café, fazer compras de primeira necessidade. Notem que esse não é um bairro nobre, mas um simples bairoo de classe média de Barcelona.
Qualquer sobra de espaço é pretexto para que se crie um recanto qualificado. Piso, postes, muro, banco, lixeira, todos integrados por um projeto.
Em qualquer rua pode-se colocar bancos e tornar o ambiente mais amigável. Uma rua do bairro de Grácia, Barcelona.
Um pedaço da beira-mar no bairro da Barceloneta, Barcelona. O mesmo cuidado encontrado no resto da cidae na disposição das árvores, dos bancos e na pavimentação.
Neste pedaço do porto de Barcelona, uma aula de como qualificar um espaço público. Tudo é pensado como um conjunto. Só exemplificando, vejam no canto esquerdo da foto o conjunto que formam o banco no primeiro plano, as duas árvores, o retângulo gramado e, na diagonal, a grelha de recolhimento da água da chuva.
Por fim, um banco em granito e aço. Além dos materiais nobres, coisa inimaginável por aqui (logo seria roubado e vendido por uns trocados), o modo em que as dimensões do banco e da pavimentação estão em perfeito acordo.
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SUSTENTABILIDADE: ALGUMAS COISAS QUE NÃO SE DIZ


Há dois anos publiquei aqui mesmo um texto em que tentava explicar o que significa o termo sustentabilidade no âmbito da arquitetura e sugeria medidas possíveis de ser implantadas com as tecnologias e mão de obra disponíveis no Brasil.
De lá para cá o uso do termo continuou crescendo e, consequentemente, o seu abuso. Hoje se aplica o termo sustentabilidade para qualquer atividade: até escritórios de advocacia declaram dedicar-se à práticas sustentáveis! O que isso demonstra é que a maioria das pessoas que usa esse termo não sabe do que está falando e o utiliza porque pensa que isso lhe trará alguma vantagem, já que está na moda falar disso.
Dada a confusão reinante, gostaria de fazer algumas observações adicionais sobre o tema.
1. Nos anos 1990 todos começamos a falar de globalização, embora o termo corresponda a um fenômeno existente desde o segundo pós-guerra, período em que se tornou evidente o predomínio econômico, tecnológico e cultural dos Estados Unidos. Da mesma forma, o termo sustentabilidade é coisa recente, mas o assunto a que se refere não tem muito de novidade. Desde os anos 1970 temas como poluição, aquecimento global, energia solar, etc, já eram motivo de acirradas discussões entre os ecologistas e aqueles que não se preocupavam com a deterioração do meio ambiente. Talvez o único tema que não tenha sido abordado naquela época é o das emissões de carbono por parte das edificações.
2. Construir de modo sustentável ou ecologicamente consciente é bem mais caro do que do modo habitual de construir, especialmente no Brasil, onde a construção corrente é rudimentar e só consideramos o custo presente da obra, em vez de pensar no médio e longo prazo, no custo de manutenção e no impacto ambiental de uma obra.
Exemplo 1. O custo de uma instalação de água quente utilizando energia solar é de 4 a 5 vezes o de uma instalação que utilize gás como combustível, mas em três anos esse custo adicional se paga e dali em diante a economia que faz em energia é considerável. Não obstante, enquanto o uso da energia solar não for lei continuaremos a optar pelo mais barato no momento.

Exemplo 2. Um dos elementos mais importantes de um sistema de conservação de energia é o fechamento dos edifícios, suas paredes e aberturas: a maior inércia e estanqueidade corresponde uma perda muito menor do calor ou frio gerados no interior do edifício. Na Europa e Estados Unidos já não se encontram as soluções primárias que usamos por aqui. As paredes, mesmo em construções subsidiadas, são hoje compostas de várias camadas (ver ilustração) enquanto as nossas se limitam a uma camada de alvenaria revestida por dentro e por fora. Analogamente, as aberturas fora daqui geralmente apresentam vidros duplos – e até triplos, em situações extrema – sabidamente mais eficientes do ponto de vista termo-acústico.


Acima: fachada ventilada européia, constituída por várias camadas e materiais.

3. Talvez este seja o ponto menos mencionado na histeria atual sobre o tema: a bandeira da sustentabilidade não pode ser carregada apenas por indivíduos e empresas privadas. De nada adiantam soluções restritas ao edifício individual se o problema que nos aflige tem escala metropolitana, senão global.
Essa bandeira tem que ser assumida pela sociedade como um todo, especialmente pelos seus representantes máximos: o poder público. Devem ser tomadas medidas e decisões que afetem a todos e ao espaço em que vivemos e trabalhamos.
Mais um exemplo. Não teremos melhoras nas nossas condições de vida se a cidade como um todo não se tornar sustentável. Uma condição essencial para isso é que ela seja compacta – isto é, mais densa e menos espalhada no território – e funcionalmente mista: isso determina menores distâncias a serem percorridas pelas pessoas, uso menos intensivo do automóvel, menores extensões das infra-estruturas públicas – vias, redes elétricas, hidráulicas, de esgoto –, ciclo de uso de 24hs na maioria das áreas da cidade, e um longo etc.

Acima: proposta vencedora do concurso lo2no, realizado na Finlandia, cujo objetivo foi a busca de soluções urbanísticas para a redução das emissões de carbono. A proposta vencedora se baseia numa idéia de cidade compacta e multifuncional.

E o que fazemos hoje em nosso país? Ao invés de compactar a cidade e mesclar os usos, espalhamos a cidade criando condomínios fechados os quais, além de matarem a cidade e serem péssimas alternativas, acabam resultando numa extensão perdulária das infra-estruturas públicas.
Em resumo: o tema da sustentabilidade no Brasil ainda envolve desconhecimento, muita conversa fiada e quase nenhuma ação efetiva.
NOTA: Os dois textos mencionados acima podem ser encontrados aqui (o primeiro sobre sustentabilidade) e aqui (sobre condomínios fechados).
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LEITE DE PEDRA

Entre arquitetos tem-se como verdade que não é preciso mais do que uma pequena obra para se comprovar a qualidade de um profissional. Isso é inteiramente verdade a respeito desta pequena casa realizada em Valencia, Espanha, pelo arquiteto Manuel Cerdá Perez.

Começando por um terreno quase impossível pelas suas dimensões (12x12m) − basta pensar que um terreno padrão em muitas cidades brasileiras varia em torno de 10x30m, o que representa mais do dobro da área disponível para essa casa − com dois dos seus limites bloqueados pelas paredes dos terrenos lindeiros.

O projeto resultante é admirável porque consegue evitar a sensação de confinamento que seria de esperar em um terreno assim. Isso é obtido porque a maioria dos espaços interiores abre para estreitos pátios laterais o que permite a ventilação e a ampliação das visuais. Outro aspecto interessante é o modo como o projeto tira partido da esquina, ao criar uma micro-praça de acesso à casa.

Tenho certeza que muitos leitores deste blog, acostumados a outro tipo de arquitetura, talvez estranhem certos aspectos dessa casa como a predominância do branco, a ausência de venezianas ou outros meios de escurecimento, a quantidade de vidro nas fachadas, a ausência de grades, etc. Muitas dessas soluções têm uma explicação arquitetônica enquanto outras só podem ser explicadas pelas diferenças culturais: embora conectados eletronicamente com o mundo todo, as peculiaridades de cada país ou mesmo região ainda são muito fortes. Como exemplo, basta pensar em como os brasileiros que podem comprar uma residência rejeitam uma planta em que os dormitórios abram para a sala, coisa que na Europa é aceita plenamente.

O que importa é poder perceber a qualidade do projeto e entender que essa mesma qualidade permitiria a adaptação de suas idéias principais a outros contextos e situações culturais.

Como se diz na gíria, aqui o arquiteto “tirou leite de pedra”.






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UM MILHÃO DE CASAS! E A QUALIDADE?

Recentemente nosso presidente anunciou a construção de um milhão de habitações e acompanhou essa medida com a redução de preço de vários materiais e componentes utilizados na construção civil.

Sem dúvida, excelentes medidas. No entanto, após ler e ouvir muito sobre o assunto, e de vê-lo sendo aproveitado como plataforma eleitoral por uns e outros, fiquei preocupado com dois aspectos do problema.

O primeiro é a rapidez com que pensam ser possível construir tantas habitações. Projetos de conjuntos habitacionais − que incluem uma série de outros equipamentos além das moradias − não podem ser feitos em menos de seis meses. Some-se a isso alguns meses para a licitação da obra e pelo menos um ano para a construção e temos um prazo mínimo de dois anos, o que não é nada na escala de tempo de uma cidade mas certamente um tempo longo demais do ponto de vista da eleição do sucessor do nosso presidente...

O segundo problema é que, em nenhum momento, foi mencionada alguma preocupação com a qualidade das novas moradias. Nosso governo parece achar que é suficiente dar um teto para os menos favorecidos e tudo estará resolvido. Se esquecem de que é exatamente aí – onde as unidades são de tamanho mínimo – que se precisa mais qualidade. Num projeto de habitação social é fundamental tirar o máximo uso de cada metro quadrado interior, assim como é fundamental projetar espaços abertos de boa qualidade e dotar o conjunto de equipamentos de uso coletivo (escola, quadras esportivas, creche, locais de trabalho, etc).

A própria Caixa Federal − agência financiadora da maioria das habitações de interesse social −tem realizado desde 2004 concursos com a finalidade de “trazer boas ideias para a área da habitação social”. Isso é um reconhecimento oficial de que o nível de qualidade da habitação de interesse social é muito baixo. No entanto, a Caixa premia vários projetos a cada dois anos e não faz nada com eles a não ser depositá-los em alguma gaveta de Brasília.

Enquanto no exterior se faz centenas de concursos para habitação de interesse social e se os constrói, no Brasil – onde há uma aguda necessidade de qualidade nesse setor – o órgão responsável se dá ao luxo de realizar concursos que levam a nada.

Se chegarem mesmo a construir esse milhão de moradias, temo que a qualidade vai ser muito baixa, como de costume. Mais um caso em que se pensa que quantidade é suficiente.

Como ilustração, algumas imagens de um dos concursos da Caixa em que participei, sendo a proposta localizada em Cristalina, GO. Projeto premiado e, é claro, engavetado.




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A DOR ALHEIA COMO NEGÓCIO

Muito se fala na influência da arquitetura e do urbanismo sobre a qualidade de vida. Raramente essas afirmações são acompanhadas de exemplos mas o foco da discussão geralmente são os efeitos positivos dos bons edifícios e dos espaço urbanos bem concebidos na vida das pessoas.

Estou de acordo com isso, mas gostaria de expandir a discussão chamando a atenção para o fato de que pouco se fala dos efeitos da má arquitetura e do urbanismo equivocado, na minha opinião até mais relevantes para a nossa vida, pois são mais notáveis e nocivos.

Um ambiente desqualificado pode transformar atividades agradáveis em rotinas intermináveis, pode alterar nosso humor sem que saibamos a causa, no limite pode até prejudicar nossa saúde. Recentemente tive a oportunidade de encontrar um caso em que a arquitetura tem o poder de influenciar negativamente o estado de espírito das pessoas.

Infelizmente, neste verão tive que ir duas vezes ao Crematório Metropolitano de Porto Alegre para abraçar os familiares de duas pessoas queridas que haviam falecido. Tarefa nada agradável mas obrigatória. A situação já é por si só difícil, mas fica ainda pior quando o ambiente onde se realiza o velório não é qualificado.

Dizer que o local onde os velórios aconteceram não é qualificado é pôr panos quentes sobre um edifício lamentável, que uma sociedade mais consciente que a nossa repudiaria imediatamente. A começar por um acesso frontal desprotegido e estreito, e uma entrada pelo estacionamento realmente indigente − ninguém se deu conta de que há décadas as entradas pelo estacionamento se tornaram importantes! Nesse acesso secundário temos que falar por um interfone com alguém que nos pergunta o que queremos! O que posso querer em um lugar em que se vela pessoas? Além dessa recepção hostil, os que chegam pelo estacionamento têm que subir no mesmo elevador utilizado para levar os caixões ao andar superior!! A seguir, um sistema de circulação labiríntico, em que não se tem noção alguma de onde estamos e para onde podemos ir.

As salas onde os falecidos são velados são mal dimensionadas − além de mal proporcionadas − o que obriga os presentes a sentar-se num espaço ao longo da circulação geral, onde é comum se misturarem os participantes do velório com os funcionários do crematório, que passam por ali a todo momento. Junte-se a isso um ‘sistema’ de ar condicionado ineficiente e a ausência total de qualquer relação com o exterior e temos um ambiente tétrico, indigno do que se desenrola no seu exterior.

Completando esse quadro lamentável, um aspecto típico da vida no século 21: o comercialismo descarado, estendido a todas as atividades humanas. Enquanto velam um ente querido as pessoas são obrigadas a ver propagandas do crematório em um monitor de TV!!!! Obviamente, logo adiante nesse espaço ambíguo em que se acumulam todos os tipos de usuários há um balcão de vendas dos produtos anunciados no monitor.


Na minha opinião a origem de tudo isso é que nem os proprietários nem o arquiteto responsável tinham a menor idéia do que estavam fazendo, do tipo de edifício que estavam por construir. É nesse momento que é preciso ter conhecimento, ter experiência do mundo, não apenas dinheiro e um diploma universitário.

Se os envolvidos possuíssem esse conhecimento, entenderiam que um edifício desse tipo não é qualquer edifício, que possa ser resolvido como quem projeta uma loja ou escritório. Ali se desenvolve um ritual milenar, em que as pessoas se consolam mutuamente e se despedem de alguém que foi importante nas suas vidas. Esse tipo de edifício tem que ser de algum modo especial, seus espaços devem transmitir calma e esperança a todos que estão passando por esse momento difícil.

Em inúmeros exemplos pelo mundo afora, arquitetos têm procurado introduzir a natureza nos lugares onde as pessoas se despedem dos seus mortos, por meio de vistas para jardins ou pequenos pátios internos, aberturas superiores − tanto para que se possa olhar para o céu como para trazer luz natural para o interior −e até mesmo lâminas d’água.

No entanto, nesse edifício lamentável os interiores são escuros e anódinos, e não há qualquer sinal do exterior − é como se todos estivessemos numa sepultura. Nem mesmo da cafeteria no último piso há uma boa vista do exterior!

Não gostaria de terminar de um modo pessimista, por isso sugiro que olhem as imagens abaixo, de um edifício que abriga a mesma atividade, na cidade de Leon, Espanha, cujo autor é o arquiteto Jordi Badia. Além da qualidade do espaço interior há uma preocupação em tornar o edifício menos evidente, integrando-o ao parque por meio do rebaixamento do seu nível térreo e de uma cobertura que é um espelho d’àgua. Vale lembrar que se trata de obra pública, ao contrário da que comentei acima.

Motivado pelas observações acima, elaborei um projeto alternativo de crematório para o mesmo terreno. Clique aqui para ver esse projeto (e uma vez lá, clique sobre a imagem para mudá-la).







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"PLANEJAMENTO"

Nas últimas semanas, um dos fatos que têm atraído a atenção do público em Porto Alegre é a discussão sobre o destino de várias áreas da cidade, seja porque são importantes em si mesmas, seja pelo tamanho dos empreendimentos que pretendem ocupá-las.
Estou falando dos projetos para a Ponta do Estaleiro, a reforma e ampliação do complexo do estádio do Internacional − ambos na beira do Guaíba e próximos à Fundação Iberê Camargo − e o novo estádio do Grêmio, planejado para o bairro Humaitá. Todos dependem de aprovação na Câmara Municipal, pois sua viabilização exigirá alterações no Plano Diretor. Junte-se a esses três projetos o recém inaugurado Barra Shopping, próximo aos dois primeiros e vizinho ao Hipódromo do Cristal, um conjunto de edifícios de valor histórico apreciável.
Que relação existe entre os quatro projetos? Além do fato de serem grandes empreendimentos, que inevitavelmente transformarão as áreas onde serão construídos, esse conjunto de projetos revela um fato preocupante, embora comum à todas as cidades brasileiras: a falta de planejamento, de visão de futuro e de conjunto das nossas administrações.
Em qualquer cidade em que qualidade de vida seja algo real e não um slogan publicitário, a sua administração estuda a cidade, identifica áreas com potencial de desenvolvimento e literalmente projeta o seu futuro. Assim, raramente é pega de surpresa por iniciativas com as que mencionei acima.
Ao invés de projetar e induzir o futuro, definindo o que deve ser feito em cada parte da cidade, nossas administrações limitam-se a criar restrições − de uso, de ocupação, de altura, etc. Isso faz com que estejam sempre “apagando incêndios”, tendo que responder apressadamente e sobre intensa pressão às demandas dos empreendedores.
Tome-se o caso do Barra Shopping, recém inaugurado no bairro Cristal. Perdeu-se ali uma grande oportunidade de projetar um bairro inteiro, que integrasse o shopping, o hipódromo, a orla, habitação, serviços e tudo o mais que dá vitalidade à vida urbana. (Ver Apatia Terminal, postado aqui em dezembro de 2006). Outro exemplo de situação em que a prefeitura só tinha duas alternativas, aprovar ou rejeitar, sem tempo nem condições de propor algo que contemplasse as aspirações dos promotores mas também significasse um salto de qualidade para a região.
O que a cidade precisa é menos restrição e mais projeto, definição do que deve ser construído, quanto e como. Após esse passo fundamental é que entra a iniciativa privada para concretizar esses projetos e cumprir o seu papel na economia. Sempre que a iniciativa for deixada para o setor privado, os ganhos para a cidade serão mínimos, não obstante as campanhas de promoção de vendas. Por outro lado, quando há projetos urbanos competentes e com visão de futuro, todos ganham, inclusive os empreendedores.
Enquanto as prefeituras não se derem conta de que seu papel deve ser prescritivo, definidor, e não restritivo, continuaremos perdendo oportunidades e tendo as condições urbanas que temos hoje. Está na hora de as secretarias de “planejamento” ou “urbanismo” perderem as aspas e cumprirem o seu real papel.

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BOAS FESTAS

Desejo a todos os que visitam este blog um Feliz Natal e um excelente 2009!

Centro Cultural da Embaixada do Chile em Buenos Aires, Edson Mahfuz e Helio Piñón, arquitetos

UM PROJETO PARA O SEBRAE-MG


Após vários meses comentando a arquitetura de outros profissionais, talvez seja um bom momento de apresentar algo produzido no meu escritório. Em um terreno já ocupado pelo Centro Operacional do Sebrae (o mais alto do conjunto) e pela Escola Técnica de Formação Gerencial (o mais baixo, no ponto mais alto do terreno), projetamos o edifício para o Centro de Referência em Empreendedorismo do Sebrae-MG, em Belo Horizonte.

Se trata de um edifício administrativo cujo objetivo é o atendimento direto às pequenas empresas e aos empreendedores, oferecer treinamento e sediar feiras e convenções. Esse programa está distribuido em um edifício composto por três blocos: os dois mais altos abrigam os escritórios e o mais baixo o salão multiuso.

Duas características importantes do projeto são a utilização de técnicas construtivas que possibilitem construção rápida (estrutura metálica e elementos pré-fabricados) e a presença de uma série de estratégias que visam a sustentabilidade em sentido amplo (aproveitamento da água da chuva, reciclagem de águas servidas, proteção solar, uso de energia solar, ventilação natural, etc).

Autores: Edson Mahfuz e Ana Paula Alcantara Gomes.
Colaboradores: Gabriel Giambastiani e Liana Armani.