LEITE DE PEDRA

Entre arquitetos tem-se como verdade que não é preciso mais do que uma pequena obra para se comprovar a qualidade de um profissional. Isso é inteiramente verdade a respeito desta pequena casa realizada em Valencia, Espanha, pelo arquiteto Manuel Cerdá Perez.

Começando por um terreno quase impossível pelas suas dimensões (12x12m) − basta pensar que um terreno padrão em muitas cidades brasileiras varia em torno de 10x30m, o que representa mais do dobro da área disponível para essa casa − com dois dos seus limites bloqueados pelas paredes dos terrenos lindeiros.

O projeto resultante é admirável porque consegue evitar a sensação de confinamento que seria de esperar em um terreno assim. Isso é obtido porque a maioria dos espaços interiores abre para estreitos pátios laterais o que permite a ventilação e a ampliação das visuais. Outro aspecto interessante é o modo como o projeto tira partido da esquina, ao criar uma micro-praça de acesso à casa.

Tenho certeza que muitos leitores deste blog, acostumados a outro tipo de arquitetura, talvez estranhem certos aspectos dessa casa como a predominância do branco, a ausência de venezianas ou outros meios de escurecimento, a quantidade de vidro nas fachadas, a ausência de grades, etc. Muitas dessas soluções têm uma explicação arquitetônica enquanto outras só podem ser explicadas pelas diferenças culturais: embora conectados eletronicamente com o mundo todo, as peculiaridades de cada país ou mesmo região ainda são muito fortes. Como exemplo, basta pensar em como os brasileiros que podem comprar uma residência rejeitam uma planta em que os dormitórios abram para a sala, coisa que na Europa é aceita plenamente.

O que importa é poder perceber a qualidade do projeto e entender que essa mesma qualidade permitiria a adaptação de suas idéias principais a outros contextos e situações culturais.

Como se diz na gíria, aqui o arquiteto “tirou leite de pedra”.






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8 comentários:

Oliveira Júnior disse...

Solução simples e bastante criativa. A proposta otimizou bastante o aproveitamento do terreno. Percebe-se pela vizinha que a legislação local favoreceu a implantação. Em se tratando de um terreno de esquina, se fosse aqui a nossa prefeitura exigiria recuos frontais de 5,00m mais recuos laterias de 1,50m. Então dos 12,00m x 12,00m só restariam 5,50m x 5,50m pra fazer a casa.

Edson Mahfuz disse...

oliveira,

isso depende do lugar. em porto alegre terrenos pequenos tem tratamento especial, podendo construir em (se não me engano) 75% da sua área. também há diferenças no que se refere aos recuos.

abraço.

Guilherme Moraes disse...

Professor Mahfuz.

Fico feliz com a descoberta de "achar" um blog que discuta os problemas e qualidades da arquitetura atual. Sempre busquei uma janela para crescer como arquiteto e aqui encontrarei bons motivos para seguir acreditando na nossa profissao. Uma observaçao sobre este post: definitvamente os arquitetos espanhóis estao realizando uma boa arquitetura, claro que com excessoes.

Abraço

Guilherme Moraes, doutorando na UPC , Barcelona, departamento de projetos.

gmoraes9@yahoo.com.br

mario yoshinaga disse...

Gostei muito deste blog e já assinei para acompanhar. Parabéns Mahfuz.
Quanto ao comentários sobre o "milhão de casas e milhão de minhas vidas", realmente a infraestrutura urbana precisa ser pensada junta pois senão teremos mais um milhão de casas com deficiente atendimento de saneamento básico, energia e de transportes ( neste caso, referindo-me ao sistema viario e não aos veículos).

mario disse...

Voltando ao "Milhão de Casas e Milhão de Minhas Vidas",uma vez que parece um programa, como os outros de habitação popular, onde o maior beneficiario parece ser o empreendedor privado, o construtor, que depois de construido recebe o dinheiro e deixa prá traz "a menina grávida", isto é alguém que vai quitar a divida com a CEF por longos e longos anos de compromisso do seu minguado salário. Enquanto isso, o ""pai da criança" sai a busca de outros financiamentos do governo, sem nunc mais retornar à obra que lhe deu o lucro. Nem mesmo para conferir se poderia ser melhorado, uma inocente visita de pós-ocupação.
E assim, criam-se espaços residenciais sem a minima noção de que estariam combinando elementos bombásticos para a manutenção urbana, que é a baixa renda com a baixa densidade. A composição ineficiente urbanisticamente que traz muitas despesas em várias areas como a de saude, segurança, saneamento básico, etc.
Tenho alguns textos em www.qualidadeurbana.blogspot.com e em www.eficienciaurbana.blogspot.com que podem contribuir para nossas discussões urbanas.

BlogPortobello disse...

Excelente!
Parabéns pelo blog. É realmente muito bom encontrar blogs que discutam arquitetura na sua essência. Construir em um terreno pequeno é um grande desafio, mas grandes desafios geralmente constroem grandes ideias.

maryoxinaga disse...

Edson, vc tem lido os comentários de seus seguidores?
Abçs. Mário Yoshinaga

Edson Mahfuz disse...

sim, mário, tenho lido, mas a minha velocidade de resposta deixa a desejar, é apenas a de um ser humano ocupado. ainda não consigo respondê-las no instante em que chegam, até porque posso não estar no computador nesse momento.

por outro lado, só respondo àquelas que, como a tua, não são anônimas.