A VIDA É UM SOPRO



Seguidamente me sugerem que comente a obra de Oscar Niemeyer, arquiteto longevo —está por completar 100 anos e ainda na prática— e um dos mais importantes na arquitetura brasileira de todos os tempos. O tema é instigante e tópico, pois o centenário de ON é tema em toda a mídia, não apenas a especializada.

A importância de Niemeyer é inegável, goste-se dele ou não. Embora não tenha sido o responsável por introduzir a arquitetura moderna no Brasil, foi aquele que tornou-a nossa, não só adaptando-a à nossa cultura como criando um modo peculiar de modernismo. Pode-se também dizer sem muito risco de errar que uma arquitetura moderna brasileira autêntica passa a existir a partir da sua produção e que, por muito tempo, aos olhos dos estrangeiros, Niemeyer e arquitetura brasileira foram sinônimos.

Penso que a sua qualidade primordial é a capacidade de síntese formal, de criar edifícios com muito poucos elementos, resultando em formas poderosas e imensamente memoráveis. Não é à toa que muitas das suas criações viraram símbolos dos lugares em foram construídos; servem como exemplos o edifício do Congresso Nacional —uma plataforma sobre a qual se assentam uma torre e duas cúpulas semi-esféricas— e o Museu de Arte de Niterói —uma espécie de cálice colocado sobre um promontório de onde se tem vistas sobre a Baía da Guanabara.

Na minha opinião, há dois Oscar Niemeyer, referentes a duas fases da sua longa produção profissional. O primeiro Niemeyer é o que vai do final dos anos 30, quando participa da criação do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, até algum momento nos anos 60, quando se conclui o essencial da construção de Brasília. Essa fase é marcada por edifícios fantásticos, desde os projetos iniciais para a Obra do Berço e o Banco Boa Vista, no Rio, passando pelo conjunto da Pampulha, em BH, pelo edifício COPAN e pelo Parque do Ibirapuera, em São Paulo, chegando à nova capital federal, onde constrói, entre outras coisas, o maravilhoso conjunto da Praça dos Três Poderes.

A partir daí tem início uma segunda fase a qual, ao contrário da primeira, não tem muitas consequências em termos de influenciar a produção corrente e criar uma escola, um modo compartilhado de fazer arquitetura. Na segunda fase aparecem alguns aspectos de Niemeyer que me parecem prejudiciais ao desenvolvimento da arquitetura brasileira pós-Brasília: seu caráter excessivamente escultórico, em que o componente estético é demasiadamente dominante; sua obsessão pela criação do novo em todas as circunstâncias; sua insistência em realizar proezas construtivas e estruturais mesmo em situações em que não são necessárias; sua convicção de que a arquitetura deve gerar uma sensação de espanto.

Creio que a segunda fase de ON inibiu o desenvolvimento de uma arquitetura brasileira corrente —a que fazemos nós, os outros, simples mortais— correta e competente. Muitos passaram a acreditar que Arquitetura —com maiúscula— é só o que cumpre com aqueles preceitos, que o ângulo reto é burro e pouco criativo, que discreção e simplicidade são características de quem não tem talento. O resultado disso é a péssima arquitetura que forma as cidades brasileiras.

No entanto, essas observações não diminuem em nada a importância da sua obra, que merece ser celebrada e admirada. Sua tenacidade, mantendo-se ativo, participante, produtivo e lúcido aos 100 anos, deve servir de exemplo para todos nós.

Para encerrar, uma sugestão: se tiverem oportunidade de assistir ao documentário A vida é um sopro, do diretor Fabiano Maciel, não percam, pois vale a pena. É um maravilhoso trabalho sobre Niemeyer, que mostra o homem e o arquiteto de um modo acessível e inspirado.

A foto acima é do Teatro Popular de Niterói, recém inaugurado.


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5 comentários:

Anônimo disse...

Olá
Assisti o documentário na sessão comentada do dia 27.04 no Santander, e achei realmente muito interessante... pena que o bate-papo foi mais direcionado para as questões de cinema e quase não se falou na arquitetura do ON...
Natália Luz daluzagrimensura@terra.com.br

Luciano L. Basso disse...

Edson, grandes colocações acerca de um grande arquiteto, mas que às vezes eu penso (e quem sou eu pra pensar alguma coisa sobre ON) que ele já deveria ter pendurado as chuteiras.

Algumas novos projetos parecem caricaturas dele mesmo, eu olho e me dá a impressão de uma cópia mau feita de um Niemeyer...

abraço
luciano

Edson Mahfuz disse...

oi natália,

bem, a noite era do diretor e o foco da discussão era o filme e a sua realização, não necessáriamente a arquitetura. a platéia era heterogênea e talvez não recebesse bem uma longa discussão sobre arquitetura. isso vai ter que ficar para outra oportunidade.

abraço.

Edson Mahfuz disse...

luciano,

a impressão que fica é que muitos políticos querem tirar uma casquinha dele enquanto está vivo. devem pensar que é importante para suas carreiras políticas construir algo assinado por ON, não importando o quê. é um fen^meno que está acontecendo em outras partes do mundo, com outros políticos e arquitetos.

abraço.

camila disse...

Olá Edson, sou estudante do 5° ano de arquitetura, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e concordo plenamente com essa mudança nas obras de Niemeyer. Não que as obras dele sejam "espantosas" tal como acho que são as de frank gehry, mas acho q ele deixou de lado uma arquitetura funcional e simples por algo completamente teatral e aparecido. De qualquer forma não deixa de ser um exemplo de profissional e o Brasil deve muito a ele.
Abraços!
Camila