ESTILISTAS E COSTUREIRAS

Entre os inúmeros matizes que podem assumir as relações entre profissionais de arquitetura e seus clientes há dois tipos de relação bem identificados e próximos de cada extremo desse espectro. Eu os associo às figuras da —ou do— estilista de moda e da costureira de bairro.

Quem vai ao ateliê de um estilista de moda busca de uma solução para um problema ligado ao vestuário, sabendo que aquele profissional tem um modo de trabalhar que pertence a um certo universo estético e técnico, e que a solução para o seu problema individual terá inevitavelmente relação com aquele universo. Há um respeito profissional envolvido nessa relação, traduzido na confiança de que o estilista produzirá uma solução adequada para o problema do cliente.

O outro caso é muito diferente. A costureira do bairro é alguém modesto, sem muito treinamento, que trabalha em geral na própria casa ou em algum outro lugar pouco adequado. A nossa relação com ela não é de igual para igual: somos seus superiores e lhe ordenamos o que fazer. E ai dela se não fizer exatamente o que for pedido, logo procuraremos outra.

O mesmo poderia ser dito sobre as relações entre clientes e arquitetos no Brasil neste início de século XXI. Pouquíssimas são as situações em que o arquiteto é tratado como o estilista de moda, com o respeito e a confiança que merece todo profissional de boa formação. E, quando acontece, nem sempre é resultado de uma atitude positiva em relação ao profissional, mas do desejo de se beneficiar da exposição resultante da contratação de uma “estrela” midiática; o edifício pouco importa como obra de arquitetura, o importante é que falem dele.

Infelizmente para todos os envolvidos, geralmente o arquiteto é tratado no Brasil como a costureira do bairro. Os clientes lhe dizem o que fazer, até como fazer, ameaçando-o com demissão caso não faça o que lhe mandam. Isso já era prática comum na indústria da construção —quase sempre os empreendedores só querem um profissional que formalize e legalize as suas decisões, que abrangem até o aspecto formal— mas agora se generalizou.

É comum que os clientes determinem o estilo, materiais e outros aspectos de um projeto arquitetônico, em vez de dialogar e entender que o profissional tem um treinamento que o capacita para tomar as decisões mais adequadas a longo prazo —o que significa que nesse campo nada deve ser feito porque “está na moda”.

Será que os mesmos que não hesitam em dizer o que os arquitetos devem fazer agem da mesma forma com seus médicos e advogados, determinando o modo como seus tratamentos ou processos devem ser conduzidos? Claro que não. Com a saúde e com a justiça não se brinca, mas no ambiente construído todos podem meter a mão, com ou sem conhecimento de causa.

Num panorama como o descrito, chega a surpreender que o nível médio da arquitetura brasileira seja tão baixo?



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12 comentários:

lcciano l basso disse...

muito bom texto! por essas e por outras que a arquitetura que vemos pelas ruas é tão ruim, porém sigo com a idéia que em grande parte a culpa é do próprio arquiteto.

é muito mais fácil para o arquiteto utilizar desculpas para justificar uma má arquitetura (o cliente é ruim, o orçamento era baixo, o terreno era pequeno...) do que assumir que lhe falta qualidade projetual ou que lhe faltou dedicação ao projeto.

e também é por culpa de profissionais que vendem o almoço para comprar a janta, que os clientes já não nos respeitam como profissionais e tão pouco pagam um valor justo pelo nosso trabalho.

Edson Mahfuz disse...

luciano,

totalmente de acordo. a culpa da má arquitetura é essencialmente dos arquitetos, mas essa atitude que percebo na maioria dos clientes atrapalha muito e gera uma insegurança enorme.

não somos coitadinhos e, se tivessemos espírito de classe, poderíamos mudar muita coisa. quer um exemplo? se todos se recusassem a trabalhar de graça não haveria mais a figura do "contrato de risco".

abraço.

Wellington Villa Nova disse...

Muito bom o texto, com linguagem clara e abrangente.

A problemática reside no fato do arquiteto tornar sonhos reais (projetar e edificar), muito desses sonhos já têm forma, cor, materiais, já foram pesquisados, pensados, discutidos, ou seja, “mentalmente materializados”, basta então (como se isso fosse simples), o arquiteto o desenhar e formalizar, com liberdade de composição ou não.

Em muitos casos o cliente é mais arquiteto, e o arquiteto é mais desenhista.

E sobre "estilistas e costureiras de bairro", convido-os a visitar um post de meu blog, entitulado: Niemeyer e Brasília: Uma Polêmica

Abraço,

Roberto Guedes disse...

Concordo com ambos, sou muito novo ainda na área, mas pelo que já acompanhei em estágios que fiz e pelas conversas de professores e profissionais, vejo que muitas das vezes somos nós mesmos que nos sujeitamos a fazer de graça o que empreendedores sugerem em concursos privados. Acredito e concordo que temos que nos enxergar como uma classe de arquitetos que se respeitam. E sempre pensar como construir da melhor maneira possível os espaços, haja visto os anos que estudamos em faculdade.

Fernando Galvão disse...

Concordo com o texto, Mahfuz. Boa comparação.
Outra coisa que irrita são as conversas iniciais de alguns clientes que, para tentarem fugir de um contrato, sempre se referem a tudo do futuro projeto no diminutivo: "Estou querendo um projetinho", "É uma casinha", "São uns predinhos num lotezinho", "É só um desenhozinho simples" etc. Chega disso!
Continue sempre com seus comentários.

fernandogalvao@hotmail.com

Michelen disse...

E eu que pensava que esse tipo de atitude era comum apenas no interior! Mas vejo que cliente com exigências sem propósito nenhum tem em todo lugar!

O pior é quando ainda escutamos que se ficar bom e bonito, receberemos o pagamento!! Será que alguém diz para um médico que se for curado vai pagar a consulta???

É impressionante o que a cultura de um país, ou a falta de, é capaz de fazer!!!

Haja luta diária para todos arquitetos!!!

E vamos à luta....

Fernando disse...

Bom, tenho uma questão a propor: se o sonho do cliente é o nosso trabalho, então não se pode ter unidade de trabalho? Isso soa mais para o lado da costureira de bairro, com certeza. Mas o que incomoda, não é extamente o cliente exigir, mas a maneira. Um cliente corporativo parace ser muito mais simples, muito mais fácil de resolver problemas.

Angela Gomes disse...

também existem excelentes costureiras e péssimos estilistas. Sem generalizar, porque o tema não é exclusivo dos arquitetos, o que falta mesmo é se posicionar no mundo ... reflexão crítica ajuda, e muito. Ninguém é tratado como "coitadinho" por acaso. Abriram espaço e não ocuparam. Talvez, quem sabe, por falta de conteúdo ...

Edson Mahfuz disse...

angela,

totalmente de acordo. o fato de possuir um diploma universitário não faz de ninguém um profissional de verdade. para isso é preciso muito mais.

se a profissão passa pela crise atual boa parte da culpa é dos próprios arquitetos, por tantas razões que não seria o caso comentá-las aqui.

um abraço.

Fernanda disse...

Concordo inteiramente com o texto e, independente de diplomas e competências (ou incompetências), é exatamente assim a relação arquiteto-cliente no Brasil. Unir os arquitetos seria a solução, mas será que conseguiríamos?

Fernanda.
fernanda.lopesdearaujo@gmail.com

Javi disse...

mahfuz,

olá, sou estudante de arquitetura e atualemnte estudo em cordoba, argentina, depois de ter estudado um ano no Brasil. Bem, as coisas por aqui sao bem diferentes, na verdade bem melhores no meu ponto de vista. Costumo dizer que no Brasil existem poucos arquitetos genios, alguns arquitetos bons e a maioria ruin, ja na argentina nenhum genio, muitos arquitetos bons e poucos ruins. Isso acaba definindo que na argentina(no geral) a qualidade geral das obras é muito boa, o que acaba de certo modo educando a sociedade sobre o que é boa e o que é má arquitetura. Consequentemente os arquitetos sao respeitadíssimos e reconehcidos como tais, e nao como decoradores de ambientes como no Brasil, que chegam a ser mais respeitados que nós, quando deveria ser ao contrário. Acredito que uma das muitas causas disto seja a qualidade da educacao nas faculdades de arquitetura no brasil, que sem duvidas, por experiencia própria, aqui na Argentina é bem melhor. Todo mundo sabe aqui que depois de medicina arquitetura talvez seja a carreira mais difícil nas universiadades, que a média que um estudante leva para se formar sao de 7 a 8 anos( a faculdade dura 6 anos), tem um dos maiores indices de desistencia da carreira, ainda altos no terceiro ano, os motivos sao porque nao aguemtam o ritmo da carreira ou por nota. Quer dizer, é um pouco assustador estudar arquitetura na argentina, mas que no final das contas acredito que faca a diferenca. Será que as faculdades brasileiras nao precisam auemntar o nivel de qualidade e exigencia? Ao final, como vc disse,a qualidade da arquitetura no brasil é fruto da nossa própria imcompetencia! sera que a sociedade nao entende o arquiteto ou o arquiteto nao entende a sociedade?será que nao é preciso parar de querer reinventar o modernismo, ou querer ser um oscar niemeyer e de uma vez por todas fazer uma arquitetura nao genial, nao surpreendente, e sim uma simples mas de boa qualidade. Náo seria uma evolucao neste caos?

Edson Mahfuz disse...

hola javi,

obrigado pela participação e parabéns pela perspicácia. eu não poderia colocar a situação melhor.

sempre pensei que a formação dos arquitetos deve ter como objetivo um profissional em condições de produzir obras corretas e adequadas às situações de cada projeto, não geniozinhos irresponsáveis ou pequenos niemeyers. a exceção deveria sair de uma base mínima de qualidade.

quanto às escolas, estás certo de novo. há escolas demais para o tamanho da demanda, porém não há professores em número suficiente. logo, estamos formando uma massa de incompetentes que, infelizmente, avilta a profissão e compromete a nossa reputação com a sociedade.

qualquer arquiteto que conseguisse fazer sistematicamente uma arquitetura simples mas de boa qualidade, como dizes, deveria ficar muito feliz.

quem busca a genialidade acaba na mediocridade.