LATAS AMASSADAS


A imagem que acompanha este texto é do edifício Peter Lewis, sede da faculdade de administração da Case Western University, em Cleveland, nos Estados Unidos, projeto do arquiteto Frank Gehry, famoso por ser o autor do Museu Guggenheim em Bilbao, Espanha.

Bem, muitos me pedem opinião sobre esse arquiteto e suas obras. Hoje resolvi me debruçar sobre o assunto, arriscando algumas opiniões parciais que não pretendem esgotar o assunto.

Em primeiro lugar, trata-se de uma pessoa de inegável talento. A maioria de nós teria muitas dificuldades para fazer o que ele faz. A fama que tem não é casual. No entanto, não considero que edifícios como o apresentado acima sejam arquitetura, e não tenho qualquer respeito por essa parte da sua obra. Me explico.

Para mim, um dos seus problemas é que a forma desse edifício não se origina nem no programa (no tipo de atividade que abriga), nem no lugar em que foi inserido, nem nas técnicas construtivas empregadas. O objeto é essencialmente uma “viagem” pessoal do seu autor. Nunca podemos esquecer que a arquitetura é, apesar de conter um componente artístico, um serviço direto à sociedade, e não deveria esgotar-se na própria exibição.

A motivação do objeto também é altamente questionável, do ponto de vista da autenticidade cultural. É um exemplo acabado de arquitetura a serviço da publicidade, feita para criar impacto e chamar atenção por um tempo limitado (tudo na sociedade do consumo e do espetáculo tem um tempo de vida determinado).

O que configura um sério problema. Se na sociedade do espetáculo e do consumo tudo muda rapidamente e as idéias e objetos se tornam obsoletos em pouco tempo, como podem os edifícios —sabidamente muito mais duráveis do que os demais objetos de consumo— entrar nesse circuito?

O objeto único e impactante que é proposto como arquitetura rompe a cadeia que historicamente relacionava os edifícios monumentais —os grandes modelos— com os projetos menores, que os respeitavam, utilizavam e inclusive os adaptavam a não ovas circunstâncias. A obra recente de Gehry exemplifica perfeitamente a arquitetura que se esgota nela mesma, não ensina, não educa e não tem descendência digna, a não ser pela inúmeras repetições perpetradas pelo mesmo arquiteto.

E aqui surge mais um problema. Enquanto podemos reconhecer alguma validade no projeto pioneiro do Guggenheim de Bilbao, o que dizer da quantidade de edifícios quase iguais —como é o caso do edifício ilustrado aqui—que o arquiteto segue fazendo por toda parte? O que era exceção virou carimbo, solução massificada, sem qualquer significado. O que era curioso virou rotina, o espanto virou vulgaridade.

Quanto tempo nos separa de termos o nosso próprio exemplar de um monte de latas amassadas elevadas ao status de obra de arte? Torçamos para que o subdesenvolvimento nos proteja disso.

12 comentários:

Margaret Jobim disse...

Caro Mahfuz
já faz um tempo que não escrevo, mas continuo lendo teu blog semanalmente. Ao me deparar com teu texto desta semana, lembrei-me de uma discussão surgida durante o NUTAU, em outubro deste 2006. Durante um dos debates (onde eu era a única engenheira), indaguei aos presentes "o que faz de um arquiteto um GRANDE arquiteto".
Pergunto: o que faz de Frank Gehry um grande arquiteto? Porque é inegável que, apesar dos questionamentos sobre sua obra, ele é um grande arquiteto!
Abraço
Margaret

Edson Mahfuz disse...

margaret,

pelas razões expostas acima, e por outras cujo lugar de discuti-las não seria este blog, não considero gehry um grande arquiteto. talvez nem arquiteto ele seja, pois o que tem realizado são essas grandes esculturas nas quais se pode entrar.

lhe falta uma qualidade fundamental a um GRANDE arquiteto: a de desaparecer por trás da sua obra, que não deveria ser uma homenagem ao seu próprio ego, mas fazer parte da cultura coletiva.

to disse...

e além de ser um escultor
baita escultor em bilbao!!!!!!!
ele sofre do mal dos artistas em geral:o perigo de sucumbir a uma fórmula
culpa também dos consumidores das obras que exigem o já digerido e conhecido e "castigam" o artista-arquiteto (pelo menos temporariamente) se ele experimnta algo de novo com a ausência da compra ou encomenda

Sérgio disse...

diante da obra deste cabe usar aquelas expressões catastrofistas de cunho religioso tipo: "é o final dos tempos"

como alguém pensa a arquitetura nestes termos? e, pior, realiza. e ainda é premiado por isso. pior ainda, tem "seguidores".

Edson Mahfuz disse...

pois é, sérgio, talvez a única explicação sejam os tempos imediatistas em que vivemos, que privilegiam o espetáculo, e a novidade estridente, deixando de lado a competência, o conhecimento acumulado e outros valores que tem a ver com o tempo.

é estranho que tenha seguidores, pois esse tipo de coisa não pode ser ensinada. ou seja, para fazer isso não precisa estudar em uma escola de arquitetura.

o que ainda nos salva disso (embora exista a nossa versão em concreto) é que esses objetos são caríssimos e não há por aqui quem os saiba construir.

vania stephan marroni burigo disse...

Caro prof Mahfuz

Confesso que me divido entre concordar contigo e pensar que a arquitetura tem hoje ( acho que sempre teve,mas mais valorizada agora)a função de criar sensações .
Isto Frank Ghery , Niemeyer conseguem....

vania

Edson Mahfuz disse...

vania,

construir um edificio é algo muito sério e caro, que envolve um grande número de pessoas. seu objetivo tem que ser maior do que criar sensações o que, de resto, qualquer edifício consegue.

o problema é tornar esse propósito o objetivo principal de um projeto o qual sempre surge para atender necessidades muito específicas.

colocar essas necessidades em segundo plano e dirigir o projeto para a criação de sensações me parece uma atitude, no mínimo, irresponsável.

um abraço e volte sempre.

Meia Dois Nove disse...

Prezado Prof. Mahfuz,
FG projeta a partir de um repertório finito. Tudo vem sempre do mesmo conjunto de latas, marteladas com mais ou menos intensidade, conforme a vontade do dia. Depois, contrata meia dúzia de críticos, e está feita a “obra”.
Abraço,

Bassalo

Tiago disse...

Professor. Vendo suas obras (no seu site e blog) tive a mesma sensaçào que teve em relação às obras de FG, só que de uma forma mais burocrática e "apagada". Sim, a obra do canadense é espalhafatosa e caiu na rotina, como todos os grandes arquitetos (inclusive e principalmente nosso genial Niemeyer). Creio que obras como essa do FG vai além da arquitetura com um propósito social. Digo o mesmo -mais uma vez- em relação as obras do Oscar. Belas, escultóricas, funcionais? e caras. Sem dúvida um gênio, que inspirou e muito, a outros vários arquitetos, inclusive a mim. Bom, agradeço FG pelas poucas latas amassadas espalhafatosas espalhadas pelo mundo. Imagino que chato seria olhar para a cidade e ver apenas sucessões de janelinhas e portinhas. Um abraço,

Edson Mahfuz disse...

tiago,

todos tem direito a ter opinião sobre as coisas. a tua é tão respeitável quanto qualquer outra, por isso a publico aqui.

não me surpreende o teu desdém para com a minha arquitetura. isso é mais do que esperado e até bem-vindo. o objetivo dessa arquitetura é ser "apagada", como tu a descreves, e anônima. na minha opinião o autor deve desaparecer atrás da obra.

gehry é o emblema de uma profissão doente, que se rendeu ao mercado e só busca espetacularidade.

também nos mostra como se pode ser um adulto comercialmente bem sucedido mas psicologicamente infantil, pois aquela arquitetura visa essencialmente chamar atenção sobre o seu autor, não para as consequencias do seu trabalho ou para a disciplina em que estão inseridos. pessoas com problemas de auto-estima passam o resto da vida chamando atenção sobre si mesmos.

no passado o inimigo da arquitetura eram os leigos, que não entendiam o que se fazia. hoje os inimigos estão em casa, são os próprios arquitetos, que passaram a confundir criatividade com a criação de objetos insólitos e espalhafatosos.

Felipe Schneider disse...

Edson,

Gostaria que tu me esclarecesse o que tem de tão diferente as obras de Gehry e Niemeyer, para que tu crucifiques o primeiro e glorifique o segundo. Pra mim isso me parece contraditório. Niemeyer, como todos sabemos, cria uma arquitetura escultórica, que muitas vezes prejudica o conforto e a função e se vale do desperdício pelo espetáculo estético. São poucos gênios que podem fazer isso: a grande maioria das tentativas se revelam obras cafonas, no sentido em que fica evidente nelas a grande pretensão não cumprida.

Por favor, retomando a minha pergunta, me explica porque, na tua opinião, o Niemeyer é bom, é criador de um estilo autêntico, e o Frank Gehry é ruim, é apenas um exibido.

Edson Mahfuz disse...

felipe,

o teu comentário tem um sério vício de origem: em nenhum lugar, neste blog ou em qualquer texto publicado, eu "glorifiquei" niemeyer.

sobre a metade da tua pergunta (porque gehry é um arquiteto irrelevante) basta ler o texto com cuidado. a resposta está aí mesmo.