NA MEDIDA CERTA

Como não me parece correto fazer críticas a torto e a direito sem apontar alternativas, começo hoje a mostrar exemplos do que considero boa arquitetura.
A primeira dessas arquiteturas se encontra em Barcelona, lugar de onde vou mostrar muita coisa boa daqui para a frente. Trata-se de um conjunto que apresenta lojas e cinemas na base, sobre as quais se elevam três edifícios residenciais. Os autores são Jaume Bach e Gabriel Mora e o conjunto ocupa o terreno do antigo estádio de Sarriá, de triste memória para nós brasileiros (aí a nossa seleção de futebol perdeu para a Itália, em 1982).
O programa residencial, para pessoas de renda média, está dividido em duas pequenas torres com apartamentos de dois e três dormitórios, e um edifício alongado (cujo extremo aparece à direita na foto superior) que se dedica integralmente a pessoas idosas, pois oferece serviços comuns de limpeza, refeitório e enfermaria.
Primeira qualidade notável: um programa que combina várias atividades num mesmo local, o que dá vitalidade ao bairro e ajuda a evitar as ruas vazias –logo, perigosas-- que conhecemos nos nossos bairros em que só há moradias. A mescla de tipos de moradores também concorre para dar vitalidade ao conjunto.
Quem já viu isso no Brasil? Por aqui predominam edifícios para uma só atividade –no máximo umas lojinhas no térreo—e para o mesmo perfil de morador. Deve ser porque dá mais trabalho pensar em algo mais complexo. Como o propósito único é vender, e o público não é exigente, continuamos com uma oferta limitada e medíocre.
E a arquitetura? Nada da “criatividade” local (brasileira), mas um exemplo de solução discreta e competente. O costume por estas bandas é transformar qualquer edifício residencial em monumento, dando-lhe uma forma cheia de elementos desnecessários e arbitrários. Quando somados, esses objetos criam um ruído visual que só enfeia a cidade.
Bach e Mora resolvem o projeto de modo exemplar: cada torre é essencialmente uma caixa de alvenaria –pintada de vermelho, com aberturas que vão do piso ao teto-- envolvida por sacadas que cobrem três das suas quatro fachadas. As sacadas são contínuas, construídas em metal, com parapeitos de vidro e venezianas que correm sobre a borda externa da sacada.
Com poucos elementos muitos resultados de qualidade são obtidos: se cria um espaço externo muito agradável com dimensões generosas, que são ampliadas visualmente pela transparência dos parapeitos de vidro. As venezianas, normalmente elementos secundários nas fachadas convencionais, aqui ganham um protagonismo muito interessante. Além do seu papel óbvio de controlar o excesso de sol, ainda contribuem para definir a aparência do edifício, sempre mutante, pois cada vez que um morador muda de posição uma veneziana está, de certo modo, alterando a fachada, que nunca apresenta duas configurações iguais.
Quem disse que não se pode fazer boa arquitetura em empreendimentos comerciais?

9 comentários:

to disse...

por falar em "medida certa":
o que vocês arquitetos me dizem sobre o tamanho dos banheiros em lugares público? porque as portas abrem para dentro e raspam no vaso sanitário? porqeu não se pode tirar uns centímetros dos larguíssimos corredores e acrescentá-los aos banheiros? afinal: é para o usuário de um shopping, por exemplo, se sentir bem ou se sentir constrangido?
eu gostaria muito de saber quem estabelece estas medidas chamadas de ergonómicas, ou ergométricas. grata!

Edson Mahfuz disse...

to,
como em todas as profissões, há gente competente e também incompetente. mas estou certo de uma coisa: antes de qualquer consideração estética, um edifício tem por obrigação permitir o desempenho confortável das atividades que deve abrigar. nessa idéia de conforto se incluem as dimensões, a iluminação, a ventilação, entre outros. se a funcionalidade e a solidez construtiva não estiverem presentes em todos os seus aspectos, estamos diante de algo diferente de uma obra de arquitetura. e o seu autor poderá ser qualificado com todo o direito de incompetente.

Anônimo disse...

caro mahfuz,
desculpa, mas sou obrigada a discordar do teu texto em alguns pontos. inicialmente, a mescla de moradores apontada por ti como qualidade notável, já existe no BR (SP). entretanto, no projeto que ilustra o texto isto não ocorre, pois fica claro que o programa é para pessoas de renda média, apartamentos de dois e três dormitórios. isto já caracteriza segmentação. continuando, a torre destinada a pessoas idosas também já foi proposta no BR, e foi um fracasso total. não vamos, em hipótese alguma, esquecer que nossos valores, cultura, educação... são completamente distintos dos da espanha e que no BR os idosos ainda são discriminados. sou favorável, isto sim, a projetos que privilegiem, indiscriminadamente, as necessidades especiais (garagens, banheiros, pisos...). por fim, gostaria de levantar um questionamento sobre o papel do arquiteto nos projetos residenciais. considerando que trabalho com avaliação pós-ocupação, venho verificando que o programa de necessidades é, quase que na totalidade das vezes, imposto pelas empresas construtoras e incorporadoras, e o arquiteto acaba tornando-se um "arranjador dos espaços e definidor das fachadas" exclusivamente.
por outro lado, problemas gravíssimos relacionados a desempenho (em especial conforto) são apontados como os mais preocupantes neste momento.
não seria o momento adequado de também discutir tecnologia, desempenho, conforto, acessibilidade e responsabilidade do arquiteto...???
Margaret Jobim

Edson Mahfuz disse...

margaret,
1. estou de acordo com as diferenças culturais, que são lamentáveis neste caso, mas elas jamais são apresentadas pelos construtores como a razão para não criar programas mais complexos.
2. não falei em mescla de níveis de renda, não acho que seria viável aqui, mas de tipos familiares (solteiros, casais com e sem filhos, pessoas de idade, etc).
3. o fato de que a definição dos programas não tem a participação dos arquitetos só comprova a perda de poder e respeito de que tenho falado. e há muitos arquitetos conformes com seu novo papel de ärranjador de espaços e fachadas".
4. quanto à tua última observação, olha o que eu respondi no comentário anterior.
abraço.

to disse...

edson, voltando aos banheiros:
pelo amor de deus, os banheiros nos cinemas dos shoppings, puxa, não dá para se mexer
porque fazem isso???????????
se tem tanto espaço nos corredores
não existe uma lei que proporciona ao vivente um espaço dingo para cagar?

Edson Mahfuz disse...

bem, existe o código de obras para disciplinar isso. resta saber se o estão seguindo. pela tua indignação, nem o código é respeirado nem o bom senso. repito, se não funciona, não é arquitetura. talvez fosse o caso de acionar o procon, não te parece?

Anônimo disse...

1.faz favor diga quais são as medidas certas para um banheiro
deve ter isso no código, né?
2. "se não funciona, não é arquitetura". oq é então?

Edson Mahfuz disse...

to,
1. Na verdade, o Código de Edificações só define o mínimo para a largura, que é 80cm. Não fala nada sobre o comprimento. Daí eles fazem pelo mínimo mesmo, não pensando nos usuários. Me parece uma economia boba de espaço em uma obra gigantesca como é um shopping. Não seria o caso de alguma associação abordar a prefeitura para exigir uma regulamentação de medidas mais confortáveis?

2. Para mim, só merece ser tratado como arquitetura aquele projeto que, antes dos valores estéticos, permite que uma atividade seja desempenhada com CONFORTO. A partir de uma base mínima de funcionalidade e correção construtiva pode-se falar no resto. Não sei que nome dar a edifícios desconfortáveis, mas eles me parecem fruto de uma mentalidade tacanha que prioriza o lucro às custas dos demais valores.

Gustavo Heurich disse...

Ola Arq. Edson...

Sou aluno do curso de arquitetura na Unisinos, São Leopoldo, e estou fazendo um projeto residencial na cadeira de projeto IV e estou querendo usar como referencia este projeto de Barcelona.
Por algum acaso, tens mais algum tipo de materia sobre este predio? principalmente as plantas baixas se possivel... fico aguardando contato!
Meu email é gth.arq@gmail.com
Obrigado
Até mais...