Há dois anos publiquei aqui mesmo um texto em que tentava explicar o que significa o termo sustentabilidade no âmbito da arquitetura e sugeria medidas possíveis de ser implantadas com as tecnologias e mão de obra disponíveis no Brasil.
De lá para cá o uso do termo continuou crescendo e, consequentemente, o seu abuso. Hoje se aplica o termo sustentabilidade para qualquer atividade: até escritórios de advocacia declaram dedicar-se à práticas sustentáveis! O que isso demonstra é que a maioria das pessoas que usa esse termo não sabe do que está falando e o utiliza porque pensa que isso lhe trará alguma vantagem, já que está na moda falar disso.
Dada a confusão reinante, gostaria de fazer algumas observações adicionais sobre o tema.
1. Nos anos 1990 todos começamos a falar de globalização, embora o termo corresponda a um fenômeno existente desde o segundo pós-guerra, período em que se tornou evidente o predomínio econômico, tecnológico e cultural dos Estados Unidos. Da mesma forma, o termo sustentabilidade é coisa recente, mas o assunto a que se refere não tem muito de novidade. Desde os anos 1970 temas como poluição, aquecimento global, energia solar, etc, já eram motivo de acirradas discussões entre os ecologistas e aqueles que não se preocupavam com a deterioração do meio ambiente. Talvez o único tema que não tenha sido abordado naquela época é o das emissões de carbono por parte das edificações.
2. Construir de modo sustentável ou ecologicamente consciente é bem mais caro do que do modo habitual de construir, especialmente no Brasil, onde a construção corrente é rudimentar e só consideramos o custo presente da obra, em vez de pensar no médio e longo prazo, no custo de manutenção e no impacto ambiental de uma obra.
Exemplo 1. O custo de uma instalação de água quente utilizando energia solar é de 4 a 5 vezes o de uma instalação que utilize gás como combustível, mas em três anos esse custo adicional se paga e dali em diante a economia que faz em energia é considerável. Não obstante, enquanto o uso da energia solar não for lei continuaremos a optar pelo mais barato no momento.
Exemplo 2. Um dos elementos mais importantes de um sistema de conservação de energia é o fechamento dos edifícios, suas paredes e aberturas: a maior inércia e estanqueidade corresponde uma perda muito menor do calor ou frio gerados no interior do edifício. Na Europa e Estados Unidos já não se encontram as soluções primárias que usamos por aqui. As paredes, mesmo em construções subsidiadas, são hoje compostas de várias camadas (ver ilustração) enquanto as nossas se limitam a uma camada de alvenaria revestida por dentro e por fora. Analogamente, as aberturas fora daqui geralmente apresentam vidros duplos – e até triplos, em situações extrema – sabidamente mais eficientes do ponto de vista termo-acústico.

Acima: fachada ventilada européia, constituída por várias camadas e materiais.
3. Talvez este seja o ponto menos mencionado na histeria atual sobre o tema: a bandeira da sustentabilidade não pode ser carregada apenas por indivíduos e empresas privadas. De nada adiantam soluções restritas ao edifício individual se o problema que nos aflige tem escala metropolitana, senão global.
Essa bandeira tem que ser assumida pela sociedade como um todo, especialmente pelos seus representantes máximos: o poder público. Devem ser tomadas medidas e decisões que afetem a todos e ao espaço em que vivemos e trabalhamos.
Mais um exemplo. Não teremos melhoras nas nossas condições de vida se a cidade como um todo não se tornar sustentável. Uma condição essencial para isso é que ela seja compacta – isto é, mais densa e menos espalhada no território – e funcionalmente mista: isso determina menores distâncias a serem percorridas pelas pessoas, uso menos intensivo do automóvel, menores extensões das infra-estruturas públicas – vias, redes elétricas, hidráulicas, de esgoto –, ciclo de uso de 24hs na maioria das áreas da cidade, e um longo etc.

Acima: proposta vencedora do concurso lo2no, realizado na Finlandia, cujo objetivo foi a busca de soluções urbanísticas para a redução das emissões de carbono. A proposta vencedora se baseia numa idéia de cidade compacta e multifuncional.
E o que fazemos hoje em nosso país? Ao invés de compactar a cidade e mesclar os usos, espalhamos a cidade criando condomínios fechados os quais, além de matarem a cidade e serem péssimas alternativas, acabam resultando numa extensão perdulária das infra-estruturas públicas.
Em resumo: o tema da sustentabilidade no Brasil ainda envolve desconhecimento, muita conversa fiada e quase nenhuma ação efetiva.
NOTA: Os dois textos mencionados acima podem ser encontrados aqui (o primeiro sobre sustentabilidade) e aqui (sobre condomínios fechados).
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