Estou falando dos projetos para a Ponta do Estaleiro, a reforma e ampliação do complexo do estádio do Internacional − ambos na beira do Guaíba e próximos à Fundação Iberê Camargo − e o novo estádio do Grêmio, planejado para o bairro Humaitá. Todos dependem de aprovação na Câmara Municipal, pois sua viabilização exigirá alterações no Plano Diretor. Junte-se a esses três projetos o recém inaugurado Barra Shopping, próximo aos dois primeiros e vizinho ao Hipódromo do Cristal, um conjunto de edifícios de valor histórico apreciável.
Que relação existe entre os quatro projetos? Além do fato de serem grandes empreendimentos, que inevitavelmente transformarão as áreas onde serão construídos, esse conjunto de projetos revela um fato preocupante, embora comum à todas as cidades brasileiras: a falta de planejamento, de visão de futuro e de conjunto das nossas administrações.
Em qualquer cidade em que qualidade de vida seja algo real e não um slogan publicitário, a sua administração estuda a cidade, identifica áreas com potencial de desenvolvimento e literalmente projeta o seu futuro. Assim, raramente é pega de surpresa por iniciativas com as que mencionei acima.
Ao invés de projetar e induzir o futuro, definindo o que deve ser feito em cada parte da cidade, nossas administrações limitam-se a criar restrições − de uso, de ocupação, de altura, etc. Isso faz com que estejam sempre “apagando incêndios”, tendo que responder apressadamente e sobre intensa pressão às demandas dos empreendedores.
Tome-se o caso do Barra Shopping, recém inaugurado no bairro Cristal. Perdeu-se ali uma grande oportunidade de projetar um bairro inteiro, que integrasse o shopping, o hipódromo, a orla, habitação, serviços e tudo o mais que dá vitalidade à vida urbana. (Ver Apatia Terminal, postado aqui em dezembro de 2006). Outro exemplo de situação em que a prefeitura só tinha duas alternativas, aprovar ou rejeitar, sem tempo nem condições de propor algo que contemplasse as aspirações dos promotores mas também significasse um salto de qualidade para a região.
O que a cidade precisa é menos restrição e mais projeto, definição do que deve ser construído, quanto e como. Após esse passo fundamental é que entra a iniciativa privada para concretizar esses projetos e cumprir o seu papel na economia. Sempre que a iniciativa for deixada para o setor privado, os ganhos para a cidade serão mínimos, não obstante as campanhas de promoção de vendas. Por outro lado, quando há projetos urbanos competentes e com visão de futuro, todos ganham, inclusive os empreendedores.
Enquanto as prefeituras não se derem conta de que seu papel deve ser prescritivo, definidor, e não restritivo, continuaremos perdendo oportunidades e tendo as condições urbanas que temos hoje. Está na hora de as secretarias de “planejamento” ou “urbanismo” perderem as aspas e cumprirem o seu real papel.
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