100 anos



Hoje se celebra o centenário do nosso arquiteto mais conhecido, Oscar Niemeyer. Por toda a parte foram publicados textos (eu mesmo contribuí com dois, ver nota), organizadas mesas redondas e exposições.

O simples fato de alguém chegar aos 100 com razoável saúde e lucidez já seria motivo para celebração. Mas quando a pessoa se torna centenária produzindo obras importantes estamos diante de um fato extraordinário.

Não vou aqui me repetir ou fazer mais uma análise sobre a arquitetura de ON. Quero só salientar algo que me parece relevante. Apesar de a história da nossa arquitetura não ser a de um homem só, nossa arquitetura começa a existir com Niemeyer e inevitavelmente se identifica com ele.

A sua proeminência e a de suas obras deram à arquitetura uma exposição que nunca teve neste país. Por enquanto a arquitetura ainda é tratada como algo curioso, removido da vida diária das pessoas, mas é um primeiro passo em direção à sua integração total à vida das pessoas.

Se nossa sociedade não entender que a arquitetura e o urbanismo são fundamentais como suporte da vida urbana e devem ser tratadas com a importância que merecem, nossas cidades continuarão deficientes e nossa qualidade de vida em patamares mínimos.

Celebremos esse centenário como é devido, mas que o utilizemos para incorporar definitivamente a arquitetura à cultura, como aquilo que define o cenário da nossa existência.

Nota: Os artigos mencionados acima são Cinco razões para olhar novamente a obra de Oscar Niemeyer (Arquitetura e Urbanismo, dezembro, 2004 - http://www.revistaau.com.br/) e Lições de um centenário (Caderno de Cultura do jornal Zero Hora


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CASA ISSO, CASA AQUILO

Espaço da Casa FOA: cada cm2 é oportunidade para colocar mais um objeto


Ocasionalmente alguém me pergunta: “não vais participar da Casa…?”, num tom parecido com “tu não trocas de carro a cada ano?” ou “não passas o reveillon em Punta del este?”. Implícito na pergunta está o meu baixo status de não participante em ditos eventos.

As mencionadas feiras de decoração são derivações de uma iniciativa argentina chamada Casa FOA, assim chamada porque os recursos arrecadados se destinam a uma instituição beneficiente, a Fundação Oftalmológica Argentina. Dessa origem estrangeira, começaram a proliferar até o ponto em que são realizadas nos confins do interior gaúcho.

Respondendo àquelas boas pessoas, interessadas em me tirar da marginalização social e profissional −como não participante de nenhuma Casa…!− apresento como justificativa quatro argumentos.

O primeiro deles é que me parece muito estranho pagar para trabalhar. Na faculdade nos contavam que na vida profissional se produziria projetos e/ou administraria obras mediante o pagamento de honorários. Nas Casa… os participantes pagam para participar, não o contrário. Devem ter frequentado faculdades diferentes da minha.

Também aprendi que o trabalho de um arquiteto sempre responde a necessidades reais dos clientes, sejam eles individuais ou coletivos, públicos ou privados. Para minha surpresa, após algumas edições em que os “convidados” projetavam espaços domésticos, a obsessão patológica do mundo moderno por novidades levou os organizadores dessas feiras a criarem programas esdrúxulos como veículo para a “criatividade” dos participantes. Assim, foram projetados espaços para artistas estrangeiros há muito falecidos (sorte deles), meras garagens foram transformadas em mini museus automotivos e até um estar indígena (!!!) foi criado, claro está que com o melhor do mobiliário contemporâneo −chão batido e palha não combinavam com a estética dominante.

Um dos principais problemas dessas feiras é o excesso que caracteriza a grande maioria das “propostas”: participante das Casa… não faz projetos, isso é coisa da gentalha. Sempre há nos espaços pelo menos 100% a mais de elementos do que seria necessário e indicado pelo bom senso. Já vi banheiros de 3m2 (lá chamados de spa) que continham cascata, piso de vidro revelando pedras relaxantes e luzes de casa noturna dos anos 80. No mesmo espírito lembro de um dormitório de adolescente que parecia um alojamento de surfistas em férias na Austrália, tal o número de coisas colocadas ali. A sensação com que sempre saio ao visitar esses eventos é a de que viver naqueles espaços é a coisa mais próxima de experimentar um pesadelo contínuo em vigília. Um das qualidades das moradias não era ser um espaço de repouso e relaxamento?

O quarto ítem que me desagrada é a glorificação da autoria. Esses locais são o habitat natural do arquiteto-estrela, que está seguidamente por lá para apresentar a sua criação e distribuir cartões e folders (quando não está sua foto sorridente o[a] representa). Penso que a arquitetura é um fato cultural, que o autor pouco importa e que deve desaparecer por trás da obra. Como prefiro a discrição à auto-promoção, fico de fora dessas feiras. O que é claro, significa que não troco de carro a cada ano nem passo os reveillons em Punta del Este.


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