A REVOLUÇÃO


No meu quarto, a cama estava aqui, o guarda-roupas lá e, entre eles, a mesa.

Até que isso me entediou. Então pus a cama lá e o guarda-roupas aqui.

Durante um tempo me senti animado pela novidade. Mas o tédio acabou voltando. Cheguei à conclusão de que a sua origem era a mesa ou, melhor dizendo, sua posição central e imutável. Mudei a mesa para lá e trouxe a cama para o meio do quarto. O resultado foi inconformista.

A novidade voltou a animar-me e enquanto durou me conformei com o incômodo inconformista que me havia causado. Pois o que acontecia é que eu não podia dormir voltado para a parede, posição que sempre tinha sido a minha preferida.

Mas ao fim de um certo tempo, a novidade deixou de sê-lo e não restou nada mais que o desconforto. Assim que pus a cama aqui e o guarda-roupas no centro. É vanguardista!

Mas, ao cabo de um certo tempo... Ah, se não fosse por esse “certo tempo”. Para ser breve, o guarda-roupas no centro do quarto também deixou de me parecer algo novo e extraordinário. Era necessário realizar uma ruptura, tomar uma decisão definitiva. Se dentro de limites determinados não é possível nenhuma mudança verdadeira, então esses limites devem ser ultrapassados. Quando o inconformismo não é suficiente, quando a vanguarda é ineficaz, é necessária uma revolução.

Decidi dormir no guarda-roupas. Qualquer um que tenha tentado dormir em um armário, de pé, saberá que tal desconforto não permite em absoluto que se durma, para não falar do inchaço nos pés e nas dores na coluna.

Sim, essa era a decisão correta. Um êxito, uma vitória total e completa já que, desta vez, “certo tempo” também se mostrou impotente. Ao fim de certo tempo, pois, não apenas não me acostumei à mudança –isto é, a mudança continuava sendo uma mudança--, senão que, ao contrário, eu era cada vez mais consciente dessa mudança, pois a dor aumentava à medida em que passava o tempo.

De modo que tudo teria ido perfeitamente bem a não ser pela minha capacidade de resistência física, que se mostrou limitada. Uma noite não aguentei mais. Saí do guarda-roupas e me meti na cama.

Dormi três dias e três noites de uma vez. Depois pus o guarda-roupas junto da parede e a mesa no centro do quarto, porque o guarda-roupas no centro me incomodava.

Agora a cama está de novo aqui, o guarda-roupas lá e a mesa no centro. E quando sou consumido pelo tédio, me recordo dos tempos em fui revolucionário...

OBS.: O autor deste sugestivo conto é Slawomir Mrozek, escritor polonês, e foi publicado em revista cientodiez, vol. O3 (www.cientodiez.cl). Tradução: Edson Mahfuz.

Ilustração: casa Mobius, de Ben van Berkel. À esquerda, diagrama de usos e, à direita, a casa daí resultante.

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IDÉIAS ENGAVETADAS



Há algum tempo a Caixa Econômica Federal, em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil, começou a fazer concursos públicos nacionais de projeto “em busca de idéias e soluções em arquitetura e urbanismo adequadas, inovadoras, para o problema do déficit habitacional brasileiro, principalmente para a população com faixa de renda familiar de até cinco salários mínimos”. São os Prêmios Caixa-IAB, realizado em 2004 e em pleno andamento neste exato momento.

Com isso a Caixa reconhece a falta de qualidade do que tem sido feito até hoje e realiza um esforço para interessar os arquitetos que tem idéias neste tema tão importante para um país como o Brasil.

Essa iniciativa, em tudo e por tudo meritória, sofre do mesmo mal de tantas outras em nosso país: ela não se completa, não vai até sua consequência óbvia e lógica, que seria a construção dos projetos vencedores.

Depois de concluído o concurso, há exposições, premiações, badalações entre os arquitetos, mas os projetos vão para a gaveta. Não adianta nada dizerem que os vencedores estão habilitados –no sentido de estarem aprovados pela Caixa-- a serem construídos por qualquer construtora que assim o desejar. Como isso aconteceria? Após os autores baterem de porta em porta oferecendo o seu trabalho?

Não seria o caso da Caixa bancar a construção de meia dúzia de projetos para materializar a incorporação de idéias à construção da moradia popular e realmente testar se elas funcionam mesmo?

Um exemplo do que estou falando é o Projeto Elemental, organizado no Chile em 2004. Por meio de um concurso internacional foram escolhidos sete projetos que estão sendo construidos como o embrião de um processo mais abrangente.

Porque no Brasil mesmo as melhores idéias não conseguem prosperar, sempre parando um passo antes da sua realização total?


Na imagem, o projeto de minha autoria para uma área em Cristalina, GO, um dos treze escolhidos no Prêmio Caixa-IAB 2004 e devidamente engavetado. Colaboraram nesse trabalho Juan Luis Mascaró, Nicolás Palermo, Roberto Nehme, Albert Koelln e Norberto Bedin.


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PÁTIOS: ABRINDO-SE PARA O INTERIOR


Algumas semanas atrás mostrei uma casa de Breuer que era generosamente envidraçada e se abria para o exterior, um campo aberto sem cercas ou outro tipo de proteção. Logo uma amiga enviou um comentário salientando, com toda razão, a dificuldade de se ter uma casa semelhante no Brasil de hoje, devido à falta de segurança.

Hoje gostaria de apontar uma alternativa que me parece bastante viável: a criação de espaços abertos interiores, pátios para os quais a casa pode se abrir integralmente sem maiores preocupações.

Essa abertura quase total para o exterior tem que vir acompanhada de muros altos, é verdade, mas o que se ganha em qualidade de vida no interior compensa a perda de comunicação visual com a parte de fora do terreno.

Posso estar enganado, mas esse parece um modo possível de construir fora dos famigerados condomínios fechados e ainda desfrutar o exterior da moradia.

Esse tipo de casa é muito comum na Europa, de onde vem os dois exemplos acima. A casa da esquerda fica em Cadiz e é do arquiteto Alberto Campo Baeza. À direita, projeto de Manuel Cerdá para uma casa na região de Valencia.


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