A PAISAGEM COMO FORMA



No país de Burle Marx, surpreende ver como a maioria dos projetos de paisagismo brasileiros não tem forma. Me explico: entendo o termo forma como relação entre elementos de um todo, não como a sua aparência.

No paisagismo brasileiro, predominam projetos em que não se percebe uma idéia global, um esqueleto formal que ordene os elementos menores. O esforço maior parece dedicado a resolver cada recanto individualmente, sem maior atenção em relação ao todo.

Exemplifico com um projeto do arquiteto espanhol Juan Navarro Baldeweg, também pintor, como o nosso Burle Marx. A imagem mostra um pequeno parque à beira de um rio, antes do crescimento das árvores já plantadas, o que nos permite ver a forma do projeto. O mobiliário urbano também não estava instalado nesse momento.

Gostemos ou não da sua composição, percebe-se que há um conceito global que integra caminhos, zonas plantadas, acessos, espelhos d’água, escadas, etc. Se olhássemos mais de perto, veríamos o cuidado dedicado aos detalhes, aos encontros entre materiais diferentes, aos acabamentos.

O desenho dos espaços públicos reflete o nível cultural de um povo. O fato de que aceitamos qualquer coisa como desenho para os nossos espaços públicos (a surrada fórmula: duas quadras + alguns bancos + alguns canteiros) revela que ainda não nos demos conta de a identidade das sociedades também se constrói visualmente, por meio da arte e da arquitetura.



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BONS CLIENTES SÃO FUNDAMENTAIS

Uma das poucas unanimidades em arquitetura é que os melhores resultados não dependem apenas de um bom arquiteto, mas da conjunção de um profissional competente com um cliente especial.

O cliente especial não é aquele que permite ao arquiteto fazer qualquer loucura ou lhe dá liberdade total e orçamento ilimitado. O bom cliente sabe o quer e manifesta o seu desejo com clareza, sem ser inflexível. Mas ele tem também uma qualidade indispensável: como sabe que o seu conhecimento é limitado à sua experiência, está disposto a considerar as sugestões do seu arquiteto, por mais estranhas que possam parecer no início, e a confiar na sua capacidade de dar soluções autênticas aos problemas que lhe são propostos.

O caso do Estádio Municipal de Braga, construído pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura para a Eurocopa de 2004 é típico do encontro e da interação entre um grande profissional e um cliente que esteve à sua altura.

Contratado para projetar um estádio convencional em uma parte plana de um parque esportivo, Souto de Moura viu a possibilidade de criar algo mais integrado ao local, inserindo o estádio numa velha pedreira que existia ao lado do terreno. Só o apoio do cliente permitiu que a sua idéia fosse levada adiante, pois envolveu um ano de excavações e trabalho em três turnos. Cliente e arquiteto foram massacrados na imprensa por dois anos até que, com o estádio pronto, tudo se inverteu, passando a obra a ser orgulho da cidade e atrativo turístico (o chamado “efeito Bilbao”). Na minha modesta opinião, valeu a pena.

Um dos seus aspectos de maior interesse arquitetônico é o fato de que é praticamente impossível separar forma e estrutura. Em Braga, arquitetura e engenharia se fundem.

Para quem tiver interesse em saber mais sobre o estádio: http://www.ordemengenheiros.pt/Default.aspx?tabid=1939 e http://www.afaconsultores.pt/afassociados.asp?cat=6&lng=1&prj=2.

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BANHO DE ARQUITETURA


As fotos acima são das Termas de Vals, Suiça, edifício construido em 1996 pelo arquiteto suiço Peter Zumthor, no local onde há uma fonte de água com qualidades terapêuticas. Se trata de um edifício público, construído pela comunidade local para o seu próprio uso mas que admite a presença de visitantes, já que está associado a um hotel. A sua observação me suscitou um par de pensamentos que gostaria de dividir com os leitores.

Embora economica e socialmente o Brasil esteja a anos-luz de distância da Suiça, a responsabilidade do poder público em relação à qualidade de vida dos habitantes de qualquer lugar é a mesma. Pena que os nossos governantes ainda não se deram conta disso.

Com exceção de algumas iniciativas intermitentes aqui e ali (notadamente em Rio e São Paulo) onde estão os programas de qualificação urbana que vão além dos aspectos mais básicos como transporte, pavimentação, energia água e saneamento? Onde estão as bibliotecas, centros esportivos, de convivência, de saúde, as escolas, etc (um longo etc)?

Por outro lado, a arquitetura em si do edifício de Zumthor, direta e discreta, sem frescuras nem sentimentalismos, buscando resolver o problema e propiciar relações com a luz, com a água, com o céu, faz da experiência de passar algumas horas nesse lugar algo memorável.

Peço perdão pelo trocadilho, mas é refrescante não ver nenhuma relação com alguma moda ou tendência. Isso é arquitetura do mais alto nível.

NOTA 1. As fotos são do arquiteto Manuel Cerdá, de Valencia.
NOTA 2. Dois sites para quem tiver interesse no edifício: www.galinsky.com/buildings/baths e www.therme-vals.ch.

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