DESAFIANDO A GRAVIDADE


Um dos temas de investigação mais característico da arquitetura moderna é a transparência, a criação de maiores possibilidades de interação com o ambiente circundante. Este tema parece já ter sido apropriado pelos usuários da arquitetura, como demonstram as observações a respeito da falta de aberturas na face voltada para o rio do edifício de Alvaro Siza para a Fundação Iberê Camargo, discutido recentemente neste blog.

Há um outro tema que vale a pena introduzir aqui, o da negação da força da gravidade, a tentativa de fazer com que elementos extremamente pesados pareçam ter pouco ou nenhum peso ou de vencer vãos enormes sem esforço aparente.

Nesta linha de investigação estão incluidos vários arquitetos brasileiros, inclusive os dois mais importantes, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha.

Embora muitas vezes a luta contra a gravidade resulte em projetos inconsequentes e perdulários, há muitos casos em que o resultado vale o esforço de viajar para conhecer o edifício (vício ao qual muitos arquitetos se dedicam). Um exemplo disso é o Centro Cultural e de Congressos de Lucerna, Suiça, 1993-2000, do arquiteto francês Jean Nouvel. O edifício, situado à beira do lago e abrigando uma sala de concertos, auditórios e um museu de arte, se destaca pela grande cobertura que protege o acesso ao Centro, uma praça pública coberta que medeia entre arquitetura e natureza. Não obstante a extensão dessa cobertura sem apoios, ela parece não ter peso nem espessura, abrigando quase sem se fazer notar.

__________________
OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se (nome + email), para eu poder saber com quem estou me comunicando. Obrigado.

CONDENAÇÕES SUMÁRIAS II

A resposta dos visitantes à minha postagem anterior me encheu de satisfação, pois cumpriu o objetivo deste blog: discutir arquitetura fora dos ambientes fechados da profissão. Tão instigantes foram as observações que resolvi tecer uma série de observações em uma postagem especialmente dedicada a isso.

Vamos lá. Em primeiro lugar, todas as opiniões são respeitáveis. Me cabe argumentar em favor do que penso e esperar que da troca de opiniões alguma coisa possa mudar.

Durante o pouco tempo de existência deste blog ficou comprovada uma de suas premissas: um abismo separa a arquitetura de verdade do seu público. O público usuário está acostumado a uma arquitetura anódina e sem ambição, cujo único objetivo é comercial. Não é que não exista boa arquitetura no Brasil, mas seu número é ínfimo comparado à massa de construções realizada aqui.

A falta de convivência com uma arquitetura mais ambiciosa e baseada em conceitos deixa o público perdido quando se defronta com um dos seus exemplares. Daí as fortes reações negativas, não apenas contra o prédio de Siza, mas também contra obras de importância similar como, por exemplo, o projeto de Paulo Mendes da Rocha para a Praça do Patriarca em São Paulo.

É óbvio que todos têm o direito de não gostar e protestar contra obras como a de Siza, ou de Paulo Mendes da Rocha, ou de Niemeyer, para extender o número de alvos. Mas porque não dedicam igual animosidade aos horrores e vulgaridades cometidos diáriamente pela má arquitetura? Nunca ouvi ninguém protestar contra certos edifícios comerciais construídos em Porto Alegre, verdadeiros monstros que ofendem qualquer olhar mais sensível.

Porque só os arquitetos sérios e preocupados com a arquitetura são atacados, enquanto verdadeiros mercenários, que tratam a arquitetura apenas como meio fácil de enriquecer, não dando a mínima para a cidade, são --na melhor das hipóteses-- deixados em paz ou –na pior-- aclamados pela população?

Sobre o projeto de Siza para a FIC, só terei uma opinião formada depois que estiver em uso, até porque ainda é uma obra. Seria injusto com Siza e com a Arquitetura, além de muito pouco profissional da MINHA parte, emitir juízos definitivos antes de conhecê-lo em profundidade e vê-lo em uso.

Mas posso falar algumas coisas que sei sobre o edifício e sobre arquitetura:
1. Ao fechamento exterior do edifício corresponde uma surpreendente luminosidade interior, resultado da presença de várias clarabóias e da cor branca predominante.
2. O tema da relação de um edifício com a paisagem tem sido resolvido de duas maneiras predominantes: ou abrimos o edifício para a paisagem de modo quase total, ou o fazemos seletivamente, abrindo-o em pontos estratégicamente escolhidos como um meio de não banalizar a vista e de aumentar o seu impacto. Este parece ter sido o caminho adotado por Siza.
3. Ser diferente do que está em volta ou do que já foi feito não qualifica por si só nenhum projeto como arquitetura. Há muita arquitetura de alta qualidade que não possui esse atributo.
4. Espelhar a função não é um dos ideais da arquitetura senão apenas uma das suas possibilidades.
5. Quando harmonizar com o entorno for um objetivo –nem sempre o é e há situações em que não deveria ser— há muitos modos de fazê-lo sem mimetizar as formas naturais ou os edifícios circundantes. No caso da FIC, o terreno apertado –que obrigou o estacionamento a ser localizado sobre a avenida— e o valor ambiental da antiga pedreira têm muito a ver com o posicionamento do edifício de Siza. A vizinhança é arquitetonicamente pobre, sobrando apenas o Guaiba como referência importante.

Concluindo, repito: não estou defendendo Siza, nem seu projeto, mas a arquitetura e o direito tanto dos arquitetos de tentar realizá-la como do público de usufruí-la e, eventualmente, de criticá-la.

CONDENAÇÕES SUMÁRIAS

O edifício da Fundação Iberê Camargo ainda não foi concluido e já começa a servir alguns dos seus propósitos. O principal deles será o de criar um novo centro cultural em Porto Alegre, um lugar apropriado para abrigar a obra de Iberê Camargo e com condições para receber exposições internacionais.

No entanto, a sua existência vai ter outras consequências importantes. Uma delas será trazer à tona, de modo inescapável, o problema da recepção da obra de arte –incluo aqui a arquitetura por conter um componente artístico-- por parte do público não especializado.

Já se ouvem, aqui e ali, as primeiras reações ao edifício de Àlvaro Siza Vieira. Num jornal diário local, alguém o qualificava de “bunker” e reclamava da existência de poucas janelas para o Guaiba.

Não vou defender o prédio de Siza, apenas faço uma sugestão: calma, pessoal! Que tal um pouco de paciência, de boa vontade para tentar entender porque o edifício é como é? Se fizerem isso, tenho certeza de que, embora possam continuar não gostando dele, o desagrado será bem fundamentado. Vão se dar conta, entre muitas outras coisas, de que o lado principal do edifício está voltado para o oeste –o lado que recebe o sol mais danoso—e que ao longo das rampas há janelas que chegam a ter 3m de largura.

O problema principal das apreciações apressadas é que só julgam a aparência, comparando-a com as coisas que são familiares a nós. Se a sede da Fundação Iberê Camargo fosse um empreendimento comercial, certamente se pareceria com algum edifício histórico. E todos gostariam dele imediatamente, apesar
de que exalaria o cheiro característico dos cadáveres insepultos... No entanto, poucos voltariam a pensar nele. A má arquitetura é como a pornografia: fornece satisfação imediata mas deixa um gosto amargo na alma.

Portanto, uma segunda e até uma terceira olhada são recomendáveis quando se trata de arquitetura de verdade, projetada por arquitetos de reconhecida competência. O resultado desse envolvimento pode ser muito melhor do que se espera.

NOTA: As ilustrações foram tiradas de matéria publicada na revista Aplauso, nº 77, 2006 (entrevista com Álvaro Siza Vieira, realizada por Daniel Feix) e sua publicação aqui foi autorizada pela Fundação Iberê Camargo.

__________________
OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se (nome + email), para eu poder saber com quem estou me comunicando. Obrigado.

O MODERNISMO DOMESTICADO DE RICHARD NEUTRA


Assim como Breuer, comentado semanas atrás, Richard Neutra (pronuncia-se “nóitra”) foi mais um europeu que imigrou para os Estados Unidos, embora não tenha ido por causa da guerra. Nascido em Viena em 1892, ele foi para Chicago em 1923 e se estabeleceu finalmente em Los Angeles em 1925.

Trago Neutra à atenção de vocês por uma razão: a arquitetura dele contradiz a maioria das críticas que se faz em relação à arquitetura moderna quando aplicada à moradia.

Dono de uma obra extensa e bem sucedida, penso que o melhor Neutra aparece nas residências que construiu. E não necessariamente nas mansões, que foram muitas, mas nas casas médias e pequenas, para famílias normais. Nessas casas encontramos a mesma economia de meios, clareza e racionalidade, combinadas com uma integração fantástica com a natureza circundante, com o uso de materiais naturais, com alta qualidade construtiva –responsabilidade tanto do projeto quanto do trabalho do construtor— e com uma constante preocupação com a habitabilidade.

Essas casas se abrem para o exterior, permitindo que os jardins penetrem visualmente e literalmente no espaço habitável. Ao mesmo tempo, o interior é protegido contra o excesso de sol por meio de beirais (extensões da cobertura) e ventilação cruzada.

Como uma casa envidraçada pode perder privacidade à noite, tornando-se uma vitrine, Neutra inventou um sistema que permitia que se mantivesse as cortinas recolhidas sem que o interior fosse devassado: lâmpadas fluorecescentes embutidas nos beirais criavam reflexos para os que observassem a casa desde a rua, impedindo que se visse o interior e mantendo a possibilidade de aproveitar vistas muitas vezes fantásticas do entorno de LA.

_______
OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se, para eu poder saber com quem estou me comunicando. Obrigado.