A resposta dos visitantes à minha postagem anterior me encheu de satisfação, pois cumpriu o objetivo deste blog: discutir arquitetura fora dos ambientes fechados da profissão. Tão instigantes foram as observações que resolvi tecer uma série de observações em uma postagem especialmente dedicada a isso.
Vamos lá. Em primeiro lugar, todas as opiniões são respeitáveis. Me cabe argumentar em favor do que penso e esperar que da troca de opiniões alguma coisa possa mudar.
Durante o pouco tempo de existência deste blog ficou comprovada uma de suas premissas: um abismo separa a arquitetura de verdade do seu público. O público usuário está acostumado a uma arquitetura anódina e sem ambição, cujo único objetivo é comercial. Não é que não exista boa arquitetura no Brasil, mas seu número é ínfimo comparado à massa de construções realizada aqui.
A falta de convivência com uma arquitetura mais ambiciosa e baseada em conceitos deixa o público perdido quando se defronta com um dos seus exemplares. Daí as fortes reações negativas, não apenas contra o prédio de Siza, mas também contra obras de importância similar como, por exemplo, o projeto de Paulo Mendes da Rocha para a Praça do Patriarca em São Paulo.
É óbvio que todos têm o direito de não gostar e protestar contra obras como a de Siza, ou de Paulo Mendes da Rocha, ou de Niemeyer, para extender o número de alvos. Mas porque não dedicam igual animosidade aos horrores e vulgaridades cometidos diáriamente pela má arquitetura? Nunca ouvi ninguém protestar contra certos edifícios comerciais construídos em Porto Alegre, verdadeiros monstros que ofendem qualquer olhar mais sensível.
Porque só os arquitetos sérios e preocupados com a arquitetura são atacados, enquanto verdadeiros mercenários, que tratam a arquitetura apenas como meio fácil de enriquecer, não dando a mínima para a cidade, são --na melhor das hipóteses-- deixados em paz ou –na pior-- aclamados pela população?
Sobre o projeto de Siza para a FIC, só terei uma opinião formada depois que estiver em uso, até porque ainda é uma obra. Seria injusto com Siza e com a Arquitetura, além de muito pouco profissional da MINHA parte, emitir juízos definitivos antes de conhecê-lo em profundidade e vê-lo em uso.
Mas posso falar algumas coisas que sei sobre o edifício e sobre arquitetura:
1. Ao fechamento exterior do edifício corresponde uma surpreendente luminosidade interior, resultado da presença de várias clarabóias e da cor branca predominante.
2. O tema da relação de um edifício com a paisagem tem sido resolvido de duas maneiras predominantes: ou abrimos o edifício para a paisagem de modo quase total, ou o fazemos seletivamente, abrindo-o em pontos estratégicamente escolhidos como um meio de não banalizar a vista e de aumentar o seu impacto. Este parece ter sido o caminho adotado por Siza.
3. Ser diferente do que está em volta ou do que já foi feito não qualifica por si só nenhum projeto como arquitetura. Há muita arquitetura de alta qualidade que não possui esse atributo.
4. Espelhar a função não é um dos ideais da arquitetura senão apenas uma das suas possibilidades.
5. Quando harmonizar com o entorno for um objetivo –nem sempre o é e há situações em que não deveria ser— há muitos modos de fazê-lo sem mimetizar as formas naturais ou os edifícios circundantes. No caso da FIC, o terreno apertado –que obrigou o estacionamento a ser localizado sobre a avenida— e o valor ambiental da antiga pedreira têm muito a ver com o posicionamento do edifício de Siza. A vizinhança é arquitetonicamente pobre, sobrando apenas o Guaiba como referência importante.
Concluindo, repito: não estou defendendo Siza, nem seu projeto, mas a arquitetura e o direito tanto dos arquitetos de tentar realizá-la como do público de usufruí-la e, eventualmente, de criticá-la.