DESINFORMAÇÃO NÃO É BURRICE

É comum se ouvir queixas de que os arquitetos não conseguem usar o conhecimento que possuem, pois a maioria dos clientes pede sempre as mesmas coisas, e coisas que os arquitetos prefeririam não fazer. Ao mesmo tempo, vemos que em outros lugares não apenas fazem o que gostaríamos de fazer, como aquela é a arquitetura corrente daquelas sociedades.

A que se deve isso? À burrice inata das pessoas que nos cercam? À superioridade cultural de umas sociedades sobre as outras? Não creio. Embora possam explicar alguns casos isolados, essas não me parecem as razões dos nossos dissabores profissionais.

Penso que a explicação para a sistemática subutilização da capacidade dos nossos bons arquitetos reside em algo muito simples: desinformação. As pessoas só podem querer o que conhecem, e o que conhecem é dependente daquilo que lhes é oferecido no meio em que vivem.

Como podemos esperar que as pessoas não envolvidas com arquitetura, artes e design desenvolvam cultura artística e arquitetônica, e a sofisticação visual que disso decorre, se nada no seu cotidiano leva a isso? Se o currículo das nossas escolas não inclui cultura artística; se as cidades são em geral feias e contam-se nos dedos os exemplos de arquitetura de qualidade superior; se os meios de comunicação –jornais, revistas populares e televisão— só tratam a arquitetura como objeto de consumo, esquecendo o seu papel cultural e vinculando a sua aparência a modas e tendências, de que modo as pessoas não vinculadas profissionalmente à arquitetura vão descobrir que a nossa profissão pode lhes oferecer muito mais do que aquilo que conhecem?

Muitas publicações e, infelizmente, muitos arquitetos tratam o público como crianças a quem não se conta toda a verdade, ou como pervertidos a quem se administra exatamente a droga ou pornografia que necessitam.

Várias experiências mostram que a maioria das pessoas, se tiverem paciência e interesse, podem entender a verdadeira arquitetura e passam a gostar e a se beneficiar dela. Nosso papel é o de fornecer informação correta e tentar explicar porque certos caminhos são mais adequados que outros. Assim, ajudaremos as pessoas a pensar, a se envolver intelectualmente e emocialmente com a arquitetura, ao invés de adotar o caminho fácil de “dar ao cliente o que ele quer”. Sabendo mais, muitos vão querer mais.

______
OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se, para eu poder saber com quem estou me comunicando.



AMPLIANDO REPERTÓRIOS: A CASA BREUER


Embora a arquitetura moderna brasileira seja conhecida internacionalmente pela sua qualidade desde a écada de 1940 –-não é à toa que dois dos nossos arquitetos receberam o maior prêmio da área, o Pritzker— a sua aplicação no âmbito residencial ainda encontra fortes resistências, especialmente no Rio Grande do Sul.

Adjetivos como frieza, abstração, entre outros, são às vezes empregados em relação à casas e apartamentos modernos. Não vou negar que as criticas nem sempre são infundadas, nem tentar argumentar desde um ponto de vista teórico. Isso só chatearia meus poucos leitores. Prefiro contrapor bons exemplos de arquitetura moderna, com o propósito de esclarecer mal-entendidos e auxiliar os interessados a ampliar o seu repertório.

Mas, antes disso me parece importante tecer duas considerações sobre a arquitetura moderna. Ao contrário do que muitos pensam, a modernidade em arquitetura não é um estilo, que leva a edificações parecidas entre si porque utilizam os mesmos elementos e cores. Se fosse assim, a arquitetura moderna já estaria morta e enterrada.

A arquitetura moderna é um modo de proceder em que a forma final não surge da imitação de exemplos do passado, mas do próprio problema a ser resolvido pelo arquiteto. Ou seja, o objeto final é uma resposta à vários aspectos específicos, como as necessidades do cliente, o lugar onde será construido, as possibilidades construtivas, etc.

E, por último, a arquitetura moderna se caracteriza por uma economia de meios –utilizar o menor número possível de elementos possível para resolver qualquer problema— que só beneficia os usuários: seus espaços calmos, pouco ornamentados e simples são um receptáculo perfeito para as preferências do usuário, que deles se apropria mobiliando-os e colocando aqueles objetos que lhe são caros.

O exemplo desta semana é a casa do arquiteto Marcel Breuer (1902-1981), construida em 1939 (!!!), em Lincoln, MA, EUA. Embora tenha quase 60 anos, essa casa ainda parece contemporânea, como acontece com todos bons exemplos desse tipo de arquitetura. As imagens mostram a sala de estar, caracterizada por ter a altura de um pé-direito e meio, abrir-se para a vista por meio de uma parede quase totalmente envidraçada e materiais normalmente associados com sensações de aconchego, como a pedra e a madeira.

______
OBS.: Comentários são muito bem vindos e será um prazer respondê-los mas, por favor, identifique-se, para eu poder saber com quem estou me comunicando.